O surpreendente PT

Essa surpresa em relação ao PT também surgiu no bem-sucedido leilão dos aeroportos, modelo de privatização cujo resultado superou as expectativas em Brasília

Carlos Alexandre-Correio Braziliense

Em política não há inimigos eternos, mas não  deixa de surpreender a alta cúpula do Partido dos Trabalhadores receber  com pompa e deferência Gilberto Kassab, até outro dia integrante das  fileiras da oposição nos quadros do Democratas, durante o aniversário do  PT. Ao fundar o PSD, Kassab se apresenta como o fiador de um partido  que se tornou a joia a ser conquistada nas eleições municipais deste  ano, com naturais desdobramentos para 2014. A determinação de vencer a  disputa das urnas na arena paulistana, ninho do tucanato, causa repulsa  em petistas como Marta Suplicy e nos militantes que vaiaram o encontro  com Kassab em Brasília na semana passada. O pragmatismo petista, no  entanto, é capaz de virar do avesso convicções políticas, discursos  inflamados, diferenças incontornáveis.

Essa surpresa em relação ao  PT também surgiu no bem-sucedido leilão dos aeroportos, modelo de  privatização cujo resultado superou as expectativas em Brasília. É longa  e antiga a defesa petista pelo patrimônio público, pela ideia de um  Estado atuante na economia. Há, decerto, setores estratégicos que, no  atual estágio do desenvolvimento econômico, necessitam da participação e  do controle governamental. O problema ocorre no momento em que essa  doutrina é relegada a segundo plano e sucumbe aos interesses eleitorais.  É difícil encontrar uma coerência entre o discurso modernizante da  infraestrutura aeroportuária nacional e o terrorismo da campanha  presidencial de 2006, quando os programas do PT alardearam que o governo  do então candidato Geraldo Alckmin iria privatizar a Petrobras e o  Banco do Brasil.

Em relação às privatizações, está claro que a  modernização da infraestrutura nacional não pode ser tratada como  bandeira partidária. Os entraves para um crescimento brasileiro  consistente são de tal grandeza e complexidade que seria ingenuidade —  para não dizer má-fé — um partido tomar para si a missão de introduzir o  país no rol das nações desenvolvidas.

Trata-se de questões de  Estado, suprapartidárias. O PT necessita, portanto, encontrar um caminho  a fim de evitar contradições tão berrantes entre os atos e as palavras.

Essa  mesma reflexão se recomenda ao eleitor, que tem o dever de avaliar como  os partidos se comportam antes e depois do veredicto das urnas. É uma  tomada de consciência fundamental para definir se determinada legenda é  melhor, pior ou apenas mais uma em busca do voto.

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