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O suicídio e a criança interior

Quem não fica impactado quando uma pessoa “forte” tenta suicídio?

Quem somos nós, repetidores de fórmulas e frases feitas, para versarmos sobre a dor profunda de alguém que resolve desistir?

Talvez ninguém tenha mesmo a titulação necessária para rotular, julgar, conduzir debates sobre o tema, se não for movido por um intenso amor aos que cansam.

Assim debulho essa esperança de reflexão. Me vendo sentada na calçada da memória, observando uma criança solitária sorvendo lágrimas salgadas em um universo onde o psicológico sustenta tudo e não é respeitado por nada.

A criança fala, entre soluços: “Olha doutor, você precisa desaprender tudo! Essa é a melhor forma de morrer para confrontar um sistema injusto!”

Mas o doutor tem uma imagem de concreto construída de ilusões, guardando a porta da alma. Se acredita esmagado pelo peso dela, e talvez esteja mesmo.

As verdades defendidas foram se revelando dúbias falações, e as certezas diluídas em novas representações, cada vez mais infiéis e indeterminadas, deixando as convicções minadas.

Urge derrubar a cena montada. Cair com a estátua de si mesmo, agora esmagada. A insubmissão e o nada!

A criança de olhos molhados deixa então, mais um recado: ” Esse heroísmo é parte da ilusão. A fraqueza neste caso pode ser libertação, não do corpo que é apenas sopro, mas da representação que merece o não!”

“Tem que zerar a validação. Anular as sentenças caídas e por fim compreender que a vida precisa de renovação.”

“Quando você aportou neste leito de rio seco, e se propôs cavar alguma esperança, havia uma representação de mim nessa andança, o eu criança, expectando e impulsionando amanhãs.”

“Minha expulsão da sua forma de verdade foi o que chamou maturidade, os blocos de sustentação que ganharam validade”.

“Mas nunca saí de você, e a cada amargura pude sentir a secura da sua procura, por mim.”

O doutor poderá ouvir uma criança interior?

Não é possível fazer bulas para outro ser seguir. Apenas nossas crianças podem se entender e enquanto caminharem por aí, confabularão sobre as difíceis decisões que movimentam os grandalhões, na dinâmica do existir.

Apenas as crianças decifram a magnitude dos sistemas de sobrevivência para quem se perde em labirintos de formalidades adultas, sempre resolutas e brutas.

As crianças recusam repetir condutas. Descobrem como se transmuta, a partir de outras formas de luta.

O que institui a morte do forte merece ser desapontado, porque na bandeja da injustiça o acepipe mais amargo é servido por quem se reinventa e de outros pães se alimenta.

Insubmissão é renovar a missão. Desistir faz parte da cantilena apressada da ilusão.

Há um guerreiro se reinventando agora e uma criança reassumindo a posse de um sonhador.

Suicídio, não.

Reinvenção. Você precisa da bonança de oferecer outros alimentos à sua criança, aceite essa esperança, doutor.

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