A abundância de temas polêmicos sobre os quais escrever, hoje em Alagoas, é um desafio para a hora da escolha.
Chegamos ao ponto de não poder mais classificar tema societário algum como prioritário, pois em estado de calamidade a prioridade define todas as situações. Assim nos encontramos.
Contudo, é sobre saúde que vamos investir, abordando sociologicamente a trilha desenhada para a classe social “pobre” percorrer.
A despossessão dos acessos capazes de dignificar a vida, desde o repouso, lazer, tipo de alimento e cuidados com a saúde, gera grandes margens de vulnerabilidade social, psicológica e física na população.
Na economia do tempo, o desgaste vem de muitas formas, mas para a nossa pobreza entranhada na engrenagem do sistema iníquo que governa este Estado, vida e morte são definidas em vias abertas que podem levar ao destroço do corpo no meio das ruas, a violência sangrenta que conhecemos bem; e garantindo a lotação dos hospitais, na tentativa de remendar algumas vidas, enquanto inúmeras outras serão largadas ao definhar, com ou sem paliativos.
Quase uma fatalidade. Não fosse programado para assim suceder.
Alagoas desperdiça minuto a minuto todo conhecimento herdado, aprimorado e reelaborado, na perspectiva de melhorias sociais e humanas.
A condenação do povo à miséria crescente não indigna nossos cidadãos, tão indiferentes quanto tiranos, esborrando preconceito em seus conceitos sobre os vencidos. Mesmo quando estão inclusos nesta categoria.
A brutalidade da exclusão afeta a vida com tal truculência, que nos ambientes hospitalares, ambulatoriais, a solidariedade é artigo de luxo frente ao sofrimento esparramado, quase sem alívio.
Em um desses lugares percebi que meus diplomas não valiam nada, mas um sorriso fraternal era recurso importante. A dor busca apenas algum conforto. Direitos é termo em desuso, dá trabalho cobrar porque aborrece quem está do outro lado; aquele que deveria prestar serviços mas distribui favores.
Multidão não tem rosto.
Gente doente só quer um médico. Médicos para o povo existem poucos nestas bandas. Aglomeram-se assim os esfarrapados da estima, de frágil identidade, na busca pelo que lhes for oferecido.
Quadro inimaginável para quem está acostumado a marcar consultas por telefone ou ser atendido a domicílio.
Doentes em quadro exposto de humilhação é cena cotidiana, mas, desde que não sejam nossos familiares. Nos acostumamos com a desdita alheia a tal ponto, que isso já nem é notícia. Servem para serem citados em orações públicas nos templos que frequentamos, mas não cogitamos a mistura.
Nascer na miséria, crescer sem moradia, alimento suficiente e educação precária, para em pouco tempo ser morto pela tragédia social ou adoecer e engrossar estatísticas nos gráficos do SUS feitos pelas instituições indicadas para esse fim, até o desencarne. Eis o mapa da fatal pobreza alagoana.
Será mesmo de contentar alguém, tão lamentável desfecho para tantas vidas?
Respostas podem variar entre o silêncio, a conivência e a luta, reação.