Nos meses que antecederam o quebra dos terreiros em Maceió, a capital alagoana estava conflagrada. O Partido Republicano Conservador apoiava Natalício Camborim para o Governo. O Partido Democrata anunciava Clodoaldo da Fonseca.
E a violenta Liga dos Republicanos Combatentes escolheu apoiar Clodoaldo da Fonseca, sobrinho do alagoano Deodoro da Fonseca mas nascido no Rio de Janeiro.
A Liga dos Republicanos Combatentes é a milícia encabeçada pelas oligarquias alagoanas, responsável pelo quebra dos terreiros de matriz africana em 2/2/1912.
Em 26/12/1911, circula um boletim da Liga incentivando o povo a não pagar mais impostos enquanto não se realizasse seus direitos, ou seja, a vitória de Clodoaldo da Fonseca. Um dia depois, um levante popular termina na morte de dois artistas, o comércio da capital fecha as portas, o bonde deixa de circular por três horas, interrompendo a comunicação com os subúrbios. Famílias eram incentivadas a sair de casa e forçar donos de ferrarias e cutelarias a lhes dar objetos que viravam armas. Os policiais passaram a ser caçados nas ruas. Um deles quase foi linchado, a farda ficou despedaçada. Obrigados a vestir roupas civis e sob pressão, os soldados apoiavam os revoltosos e pediam a morte da oligarquia, neste caso a encabeçada pela família de Euclides Malta que governava Alagoas.
Aquartelada e cercada, a polícia deixa as ruas e é substituída pelo Exército. Entre os dias 12 e 15/1/1912, mais boletins inflamando o ódio do povo: que ele tratasse com vaias, pedras e até à bala certas e determinadas pessoas citadas, chamadas ainda de víboras, bandidos e assassinos.
O inspetor da 6ª Região general Julio Fernandes lança um apelo público. Escreve uma carta aos jornais, publicada em 15/1/1912, pedindo ao povo que não seguisse os incentivos dos boletins, mantivesse a ordem e a liberdade dentro da lei.
Pouco adiantou. Os boletins eram anônimos e incluíam ameaças a quem votasse nos nomes da oligarquia, além de exigências. Tinham também uma característica comum: o apoio a Clodoaldo da Fonseca e os candidatos da chapa. Os dias avançam, chega a véspera da eleição (29/1/1912) e novos folhetos apócrifos insistem no voto a chapa de Clodoaldo da Fonseca.
Talvez prevendo fraude nas eleições, exigiam mudanças na forma de votar, com o recebimento das cédulas na boca da urna para evitar fraudes.
Chega 30/1/1912, dia das eleições. A sessão de 16/5/1912 da Câmara dos Deputados, ao ler relatório da comissão de inquérito de 22/4/1912 sobre o caso Alagoas, reconstitui este momento: “O dia amanhecera com aspecto lúgubre: a cidade, como amodorrada por longas vigílias consequentes de profunda luta civil desperta, ainda a medo, sob a impressão terrorizante dos boatos da véspera- de que inevitavelmente ocorreriam graves conflitos”.
O banho de sangue não aconteceu, mas o medo estava no ar. Em uma seção na capital, por exemplo, estavam alistados 3.038 eleitores. Apenas 1.487 apareceram. Além das fraudes, que eram muitas.
Naquela época o resultado das eleições não saía no mesmo dia, mas demorava semanas. E foi neste clima de terror que a Liga dos Republicanos Combatentes radicalizou: após a votação, uniu-se a uma horda cheia de ódio e gosto de sangue na boca e avançou sobre os terreiros em Maceió, com o argumento de que eles eram frequentados por Euclides Malta.
Era preciso, a qualquer custo, evitar a permanência da oligarquia no poder. Mesmo que isso implicasse em mais sangue e mortes.
Clodoaldo da Fonseca foi eleito e assumiu o Governo em 12 de junho de 1912. Mas a Liga ganharia ainda mais força na eleição seguinte.
