O que protege o consumidor é emprego e renda

Outro argumento que temos ouvido é de que o consumidor pagará mais caro pelo produto importado em razão de legítimas medidas de defesa comercial

Agnaldo Diniz Filho -Presidente do Conselho da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit)-Correio Braziliense

Temos  lido artigos criticando as ações do governo em defesa da indústria  brasileira e as iniciativas e propostas do setor têxtil e de confecção  em busca de isonomia concorrencial com os competidores internacionais.  Também observamos um debate que consideramos excludente: ou de que o  país será um grande produtor de bens agrícolas e minerais, ou que  caminhamos para ser imensa área de serviços. Entretanto, a indústria tem  a visão inclusiva de que o Brasil reúne condições para,  simultaneamente, ser forte no setor primário, nos serviços e na  manufatura. O país jamais poderá prescindir de sua base industrial.  Nações desenvolvidas em crise, como os Estados Unidos, buscam a  reindustrialização, pois se deram conta do grande erro que foi  transferir suas fábricas.

Outro argumento que temos ouvido é de  que o consumidor pagará mais caro pelo produto importado em razão de  legítimas medidas de defesa comercial. Essa hipótese não tem sustentação  na realidade, pois o item que tem puxado a inflação é o preço dos  serviços. Ora, não se viaja ao exterior para cortar o cabelo ou  frequentar uma academia. Ainda a respeito de preços ao consumidor, a  indústria têxtil e de confecção tem contribuído de modo significativo  para a estabilidade: de julho/94 até dezembro/11, a inflação acumulada  pelo setor, medida pelo IPCA, foi de 166,3%. No mesmo período, o índice  geral evoluiu 297%. Os preços do vestuário no Brasil foram os que menos  subiram durante todo esse tempo.

A partir de dezembro de 2009, o  IBGE passou a divulgar o Índice de Preços do Produtor, medindo a  evolução dos valores cobrados pelas indústrias. O que ocorreu foi o  seguinte: em 2011, os preços do vestuário por parte da indústria subiram  4,9%. Nesse mesmo período, o acumulado do IPCA do vestuário, medido no  varejo, foi de 8,2%. Observem que esses 8,2% deram-se diante de um  crescimento de 40% nas importações físicas de roupas, sendo que uma  recorrente justificativa para as compras no exterior é a de oferecer  produtos mais baratos aos brasileiros. Fica claro ser a indústria têxtil  e de confecção do Brasil que tem se preocupado com o consumidor.

O  setor, quarto maior produtor mundial de vestuário e quinto de têxteis,  tem no seu DNA a concorrência. A sociedade pode contar com a sua  competência e qualidade como legítimo e majoritário fornecedor de  vestuário, cama, mesa, banho, tecidos para decoração e tecnológicos. São  mais de 30 mil empresas instaladas no país, disputando o mercado  nacional e internacional, empregando cerca de 8 milhões de pessoas  direta e indiretamente e investindo de modo permanente em máquinas,  equipamentos, tecnologia, capacitação e sustentabilidade. Essa  indústria, que gera empregos e cuida do poder aquisitivo do consumidor,  não demanda favores nem artificialismos. O que não pode tolerar é que  nos transformemos em meros importadores.

O mundo está em crise e  os países, em busca de geraçao de empregos e de colocaçao de excedentes  produtivos. Por que haveríamos de ceder nosso maior ativo, o mercado  interno, a nações que competem deslealmente conosco? O que ganharemos ao  destruir nossa manufatura? É legítimo impor à indústria brasileira  desvantagens quanto aos concorrentes estrangeiros, via programas  estaduais que concedem incentivos ao produto importado? Aceitaremos que  as tarifas de importaçao consolidadas na Organização Mundial do Comércio  (OMC) sejam neutralizadas por políticas cambiais de países que  desvalorizam artificialmente suas moedas? A resposta de nossa sociedade  só pode ser um imenso “não” à desindustrializaçao.

A agenda de  trabalho da Abit tem dois pilares: resgate da competitividade sistêmica  do país e do setor e a legítima defesa comercial contra países que  praticam o dumping cambial concedem subsídios passíveis de  questionamentos na OMC e têm legislações trabalhistas, sociais,  ambientais e previdenciárias absolutamente frouxas quando comparadas às  existentes no Brasil. Aos arautos da globalização desmedida, em busca de  lucros momentâneos, afirmamos: não somos contra o comércio  internacional. Porém, se os produtos são globais, os procedimentos de  fabricação também devem ser. Nesse contexto, o fator que realmente  protege o consumidor é o que lhe garante o poder de compra, ou seja, o  emprego. Assim, vamos gerar aqui os postos de trabalho que a  desindustrialização em curso criará em outros países.

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