O Estado precisa ter força, não empresas

De modo geral, a privatização fortaleceu a economia dos 75 países que a adotaram

Eduardo Oinegue -Jornalista, sócio da Análise Editorial, foi redator chefe de Veja, diretor de redação de Exame e publisher do Portal iG

O  calendário das privatizações no Brasil ganhou novo marco: 6 de  fevereiro, quando o governo Dilma passou ao comando privado os  aeroportos de Brasília, Cumbica e Viracopos. O dia se junta, entre  outras datas, ao 2 de abril (venda da CSN, em 1993), 6 de maio (Vale,  1997), 21 de maio (Light, 1996), 24 de outubro (Usiminas, 1981), 29 de  outubro (Telebras, 1998) e 7 de dezembro (Embraer, 1994).

No  início dos anos 1980, a exemplo da maior parte do mundo, o Brasil  detinha várias estatais: 268 só na esfera federal. O Peru tinha 186. A  Tanzânia, 400. Na Itália, 12 das 20 maiores empresas eram do governo. O  Chile detinha 500 estatais. O México, 800. A Nigéria, 1.400! Entre 1990 e  2000, os governos de todo o mundo transferiram ao controle privado US$ 1  trilhão em patrimônio. A América Latina atraiu quase US$ 300 bilhões em  capital privado para a infraestrutura, 60% dos quais decorrentes das  privatizações. As estatais foram vitais para o desenvolvimento do  Brasil. Sem recursos públicos, Usiminas, Embraer, CSN e Vale não  existiriam. Não havia dinheiro privado para financiar negócios desse  tamanho. O Estado cumpriu seu ciclo.

De modo geral, a privatização  fortaleceu a economia dos 75 países que a adotaram. Em Portugal e  Hungria, gerou uma arrecadação da ordem de 25% do PIB para os governos.  No México, a abertura do setor de gás multiplicou o número de  consumidores em 15 vezes. Na Argentina, quando 80% do sistema de  transporte de cargas ferroviário foram desestatizados, o volume de  mercadoria transportada duplicou e os preços baixaram 20%. No Peru,  conseguir uma linha telefônica levava 33 meses. Após a privatização, em  1994, apenas alguns dias. Em 1998, ano da venda da Telebras, o Brasil  possuía 24 milhões de acessos telefônicos, entre fixos e móveis.  Atualmente, são mais de 250 milhões de linhas.

Ainda assim, os  políticos se referem à privatização com certa repulsa. Em vez de  festejar o feito de Dilma e sugerir às pessoas que observem a  transformação na vida dos passageiros, o PT prefere negar a  privatização. Teria sido “apenas uma concessão”. O PSDB, por sua vez,  preferiu ironizar a mudança de posição do PT sobre o tema em vez de  acusar o governo de ter privatizado pouco na comparação com o governo  Fernando Henrique Cardoso. Por quê?

Uma explicação possível é o  fato de que, com exceção dos Estados Unidos, o mundo se acostumou ao  domínio estatal na economia. Em 1840, 80% das ferrovias do mundo eram  privadas. Cinquenta anos depois, 60% estavam sob controle governamental.  A estatização foi generalizada. Nos anos 1970, a Inglaterra do  primeiro-ministro trabalhista James Callaghan encampou duas grandes  empresas — a British Aerospace e o estaleiro British Shipbuilder —,  reprivatizadas por sua sucessora, Margaret Thatcher. Em 1899, a Light,  de capital canadense, se instalou no Brasil. Em 1970, foi estatizada.  Era estratégico, dizia-se. Imperava um sentimento anticapital privado e  estrangeiro.

Nesse ambiente ideologicamente contaminado, o Brasil  ensaiou as primeiras desestatizações no início dos anos 1980. Vinte  empresas foram vendidas no governo João Figueiredo, 18 no governo José  Sarney. A privatização ganhou velocidade com Fernando Collor, Itamar  Franco e FHC. O Brasil estava endividado e precisava de caixa. Enquanto  os estatizantes falavam em “desnacionalização” e em “queima de  patrimônio público”, os privatizantes se encolheram e não investiram  numa defesa conceitual.

Não ousaram dizer, por exemplo, que o  Estado tende a ser um mau patrão. Não em função do deficit que uma  empresa sob seu comando possa produzir. Até porque empresas privadas  também dão prejuízo e o argumento não se sustenta diante dos bons  resultados da Petrobras e do Banco do Brasil. O Estado tende a ser um  mau patrão porque enfrenta um conflito de interesses. Se por um lado  quer que suas empresas deem lucro, por outro quer vê-las seguindo  políticas públicas e, por que não, atuando como máquinas eleitorais. A  Vale estatal, por exemplo, mantinha um programa de empréstimos  subsidiados para prefeituras, acionável segundo conveniências políticas.

Para  perseguir o lucro, a empresa privada, se precisar, corta custos, fecha  fábricas e demite empregados. No limite, quebra. A estatal não quebra,  pois conta com o Tesouro Nacional e o contribuinte. Além disso, atrás do  CEO da estatal há um padrinho político e um ministro, que cobram dele  de tudo um pouco. O Estado tem um papel estratégico na economia:  fiscalizar o funcionamento do mercado, ditar regras e princípios por  meio do Banco Central, de autarquias como o Conselho Administrativo de  Defesa Econômica (Cade) e as agências reguladoras. Esse Estado precisa  ter força, não empresas.

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