O equilíbrio de Priscila Angel: uma artista autista nas alturas

Por Silvio Rodrigo, repórter, autista

Aos 33 anos, a artista alagoana Marta Priscila, conhecida artisticamente como Priscila Angel, alcançou um ponto de notável equilíbrio, tanto literal quanto metafórico, sobre as pernas de pau. Formada em atuação pela Escola Técnica de Artes (ETA) da UFAL, a produtora cultural, contadora de histórias e dançarina, cuja carreira se consolidou em habilidades circenses, utiliza sua arte para confrontar as expectativas e os desafios do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para Priscila, a experiência de subir a metros do chão é, paradoxalmente, um “desafio e ao mesmo tempo um verdadeiro ‘milagre'”. A artista convive com dificuldades típicas do autismo, como má coordenação motora, falta de noção espacial e, ironicamente, uma intensa fobia de altura que a impede até de andar de bicicleta. No entanto, o universo das pernas de pau se tornou uma exceção fascinante e instintiva.

“Meu cérebro permitiu que eu andasse de perna de pau. Se tornou hiperfoco e a sensação é de estar andando descalço e normalmente. É literalmente sobreviver. Equilibrar para sobreviver”.

O hiperfoco, característica comum no TEA que permite uma intensa concentração em um interesse específico, transformou a atividade circense em uma experiência de adaptação constante e rigorosa.

O Longo Caminho do Diagnóstico Tardio

O domínio sobre as pernas de pau contrasta com a longa e dolorosa jornada de Priscila para entender a si mesma. O diagnóstico de autismo veio somente aos 32 anos, após uma vida de “mascaramento”.

“Foi uma vida inteira sem saber exatamente o que é que eu tinha”. Ela relata que, antes do TEA, recebeu diagnósticos de depressão e TDAH, mas o autismo não era considerado, em parte por ela “mascarar demais”. A arte, por meio do teatro no ensino fundamental, inicialmente a ajudou a sobreviver socialmente ao aprender a simular.

No entanto, o mascaramento cobrou um preço alto: “chegou um momento que o corpo, a saúde física, a saúde mental não aguentaram mais, eu entrei em desespero”. O quadro se agravou com o desenvolvimento de síndrome do pânico, fobia social, desmaios e a incapacidade de interagir e até de andar de ônibus.

As Sequelas do Mascaramento

Priscila destaca que, como mulher autista diagnosticada tardiamente, a pressão dos “moldes sociais” era intensa. Ela buscava sempre se encaixar, adotando o comportamento esperado: “‘a mulher tem que ser dessa forma, a mulher tem que ser gentil, a mulher tem que sorrir'”. Esse esforço constante resultou em:

  • Saúde em Risco: Desenvolvimento de muitas comorbidades e uma saúde física e mental “extremamente afetada”.
  • Amnésia da Infância: Devido ao trauma do mascaramento e da dificuldade em expressar o que sentia na infância, seu cérebro “apagou tudo”.
  • Comunicação Ruidosa: Dificuldade em lidar com relacionamentos e comunicação, sempre “fingindo que estou entendendo”.

O diagnóstico, embora tardio, foi “extremamente importante”. Ele a ajudou a “descobrir finalmente quem eu sou”, nomear as emoções, entender seus limites e prevenir crises. “Me sentir menos estranha e deslocada do mundo”.

Priscila Angel leva sua arte à Jornada de Literatura, projeto anual de contação de histórias no Sesc.

Adaptações e Limites no Palco

Apesar do alívio trazido pelo diagnóstico, a performance circense exige adaptações. Para lidar com a agitação e o excesso de barulho dos eventos, Priscila utiliza fones com proteção de ruído, uma ferramenta vital para manter a concentração e minimizar o impacto sensorial da socialização.

A artista enfatiza que seu desempenho sobre as pernas de pau depende não só de seu esforço, mas também do respeito e bom senso do público. Devido à instabilidade, um simples puxão ou abraço descuidado pode ser perigoso.

“Aprender as adaptações e os limites e principalmente o respeito necessário para não cair e me machucar. Além, também, da necessidade do bom senso e cuidado dos outros, para não me derrubar e me machucar”.

No entanto, ela celebra o acolhimento da maioria: “Mas tem as que respeitam também e sorriem de longe. Tiram foto, mas respeitam meu espaço”.

Ao transformar o hiperfoco em arte, Priscila Angel não apenas alcança novas alturas, mas se torna um potente símbolo de resiliência e da capacidade de transformar desafios em caminhos criativos e profissionais.

Uma missão de vida

Para Priscila, a arte é mais do que uma profissão; é uma ferramenta de transformação e um chamado para o trabalho social. Ela revela o desejo de expandir sua atuação, combinando sua experiência artística com o planejamento de políticas públicas.

“Eu também estou correndo atrás para conseguir voltar para a UFAL e terminar o curso de Serviço Social. Pretendo unir arte e políticas públicas culturais. Criar projetos para desenvolver habilidades e proporcionar outras perspectivas de vida para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social e neurodivergentes.”

Priscila já realiza trabalho voluntário em projetos sociais, mas almeja a atuação direta e profissional na área. Essa dedicação é movida por sua convicção pessoal sobre o poder salvador da cultura e da expressão.

“Eu faço isso como voluntária, em projetos sociais, mas quero trabalhar diretamente com isso. A arte salvou a minha vida e eu desejo que outras pessoas tenham essa oportunidade e consigam sentir isso.”

Ao integrar o autismo e a arte circense em sua jornada, Priscila Angel não apenas alcança novas alturas literais, mas também se torna um potente símbolo de como as paixões e os hiperfocos podem abrir caminhos criativos e profissionais inesperados, transformando desafios pessoais em uma missão de resiliência, arte e impacto social.

Mensagem aos Autistas Adultos

Para aqueles que estão se descobrindo autistas na vida adulta, Priscila Angel deixa uma mensagem de encorajamento:

“Não desistam de buscar o que não entenderam a vida inteira. Mesmo com prejuízos que não podem mais ser reparados, conseguir minimizar a dor de viver tudo tão intensamente, os tratamentos podem ajudar a melhorar a qualidade de vida”.

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