O bicentenário de Alagoas serve de mote para o acirrado estudo sobre as origens do nosso presente. Coisas antigas e novas se mesclam, em um palco histórico com sabor azedo. Meu paladar não adoça, e, talvez, isso tudo seja mesmo ideológico!
Mas não posso negar a alegria e o desgosto, que convivem em paralelo no território do passado tão presente, ao encontrar os antigos engenhos da região norte e suas histórias. Porque não estou no lado de quem venceu e sei disso. Sei que meu sobrenome não foi manto e criatório de autoridades armadas e togadas…mas sentiu-lhes os efeitos…
Sei que os que foram perseguidos e mortos no impedimento da ação coletora nas despensas férteis da mata atlântica, foram meus semelhantes.
Me reconheço nos choros ocultos das mães, das lavadeiras que são cristalizadas em bocas cantantes enquanto seus braços semi-cativos lavavam em vão a sujeira de um mundo desigual.
Não festejo a ação colonizadora.
O vermelho-sangue está presente demais, não posso esquecer seu cheiro de derrota, de malogro, de covardia.
E aquelas grandes mesas continuam postas.
Elas exibem o controle da nossa fome e do nosso medo, são insígnias de privilégios, diferenciações nos afagos da mesma vida…que a uns paparica e a outros açoita.
A história que escrevo está marcada pela memória do açoite.
Por isso mesmo não endosso o cortejo dos bajuladores, mas acendo as velas da esperança para as almas que não se dobram, não esquecem quem são, e nunca morrem!