O autista empreendedor e a captura neoliberal da diferença

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Por Silvio Rodrigo, autista nível 1 de suporte

Em contextos de subdesenvolvimento crônico, marcados por índices econômicos e educacionais preocupantes e por uma qualidade de vida inferior à média nacional, o empreendedorismo não pode ser apresentado como o único horizonte de empregabilidade para o adulto autista.

A figura do autista empreendedor, embora possa representar uma possibilidade concreta para alguns indivíduos, não constitui um enquadramento plenamente pertinente para toda a comunidade.

Quando transformada em narrativa dominante, ela corre o risco de apagar a construção de uma unidade política em torno de pautas fundamentais como trabalho digno, educação acessível e políticas públicas de saúde.

A exclusão histórica do autista adulto do mercado de trabalho e da chamada sociedade “produtiva” não é resultado de uma ausência de iniciativa individual que possa ser corrigida por doses cavalares de empreendedorismo.

Ela está relacionada a estruturas sociais, econômicas e institucionais que produzem barreiras de participação.

Nesse sentido, o discurso do “empreendedor de si mesmo” pode funcionar como uma nova promessa de redenção neoliberal: desloca para o indivíduo a responsabilidade por superar desigualdades produzidas coletivamente.

Nas periferias econômicas e territoriais do Brasil, o autista empreendedor corre o risco de ser convertido em símbolo de superação individual, enquanto permanecem intocadas as condições que historicamente produziram sua exclusão.

Outro ponto fundamental diz respeito à forma como a própria identidade autista, atravessada por debates sobre despatologização e pelas críticas ao diagnóstico enquanto instrumento historicamente associado a processos de segregação, passa a ser mobilizada e tensionada por diferentes atores e instituições, públicas e privadas, conforme interesses econômicos, políticos e sociais específicos.

Nesse movimento, a inclusão pode ser transformada em uma espécie de “doçura política”, produzindo discursos de harmonia social e bem-estar coletivo que deslocam novamente o foco para os indivíduos: para suas capacidades pessoais de tolerância, adaptação e convivência com aqueles que não se adequam às normas sociais predominantes.

A responsabilidade pela inclusão, assim, corre o risco de ser transferida para relações interpessoais, enquanto permanecem invisibilizadas as estruturas que produzem exclusão.

A mobilização da identidade autista também pode escorrer para o lugar comum do empreendedorismo e da construção de uma figura mercadológica baseada em atributos como a “exoticidade”, a suposta “ingenuidade inerente” ou uma “genialidade manifesta”.

É justamente nesse ponto que algumas críticas dirigidas ao conceito de autismo “high functioning” encontram eco: na transformação do sujeito autista em uma caricatura socialmente aceitável, rentável e comercializável.

A romantização do autismo, quando opera por meio de imagens limpas, palatáveis e úteis ao mercado neurotípico, produz uma representação que seleciona quais expressões da neurodivergência são valorizadas e quais permanecem desconfortáveis, invisíveis ou excluídas.

O mercado tende a acolher aquilo que pode ser convertido em narrativa de inspiração, produto, serviço ou vantagem competitiva, enquanto as demandas por acessibilidade, proteção social e transformação estrutural permanecem em segundo plano.

É o que tenho observado em determinadas iniciativas institucionais, como algumas ações da prefeitura municipal de Maceió.

As demandas do autista frequentemente aparecem enquadradas a partir de uma narrativa de infância: uma infância simbólica que emerge entre os quebra-cabeças, os discursos sobre cuidado familiar e um modelo de trabalho empreendedor sustentado pela fé em Deus, pela promoção evangélica da moralidade do trabalho e pela ideia de harmonia familiar como fundamento do progresso autista.

Essa representação se articula a uma racionalidade capitalista de melhoramento do sujeito, de suas características e habilidades compreendidas como passíveis de valorização, compra e venda.

Não se trata apenas de um incômodo estético ou discursivo, mas da manipulação do simbolismo social do trabalho por meio do apagamento das contradições, especialmente aquelas presentes nos casos de maiores dificuldades e necessidades de suporte.

O autista adulto, nesse enquadramento, aparece deslocado da narrativa central; torna-se uma presença incômoda, quase uma persona non grata, principalmente quando surge distante da figura redentora da mãe, da família nuclear tradicional e dos valores religiosos que organizam determinado imaginário social.

Assim, as políticas públicas voltadas ao autista adulto, além de historicamente precárias, acabam ocultadas pela força simbólica da infância, da família e de uma certa castração sexual e afetiva que opera como mecanismo compulsório de controle social.

Essa operação distancia o sujeito autista da “pureza” atribuída à pessoa com deficiência quando ela é apresentada como ideal dentro de um programa comunicacional hegemônico: dócil, infantilizada, inspiradora, familiarmente integrada e desprovida de conflitos sociais, políticos e corporais.

É por essas razões que o empreendedorismo autista precisa ser pensado para além da narrativa da superação individual ou da incorporação de uma gramática política baseada exclusivamente no apelo à bondade, à empatia social e ao simbolismo da deficiência como expressão de pureza construída pelo trabalho.

A questão não é negar experiências autônomas de produção, criação e empreendedorismo realizadas por pessoas autistas, mas questionar quando essas experiências passam a ocupar o lugar de resposta universal para uma exclusão que possui raízes históricas, econômicas e institucionais.

A figura do sujeito autista capitalista, quando transformada em modelo ideal, pode funcionar simultaneamente como uma prisão econômica e simbólica: ela oferece reconhecimento condicionado à produtividade, à utilidade e à capacidade de transformar características pessoais em valor de mercado.

Ao mesmo tempo, pode dificultar a construção de uma articulação política coletiva da comunidade autista em torno de direitos sociais, participação democrática e transformação das condições que produzem exclusão.

O desafio, portanto, não é construir um autista ideal adaptado às exigências do mercado, mas possibilitar narrativas múltiplas, livres e democráticas sobre o que significa ser autista.

Isso implica reconhecer a diversidade do espectro, acolher diferentes formas de existência e organizar políticas públicas que não dependam da romantização, da infantilização ou da conversão da diferença em mercadoria.

O desenvolvimento social do autista adulto passa pela sua integração como sujeito político, cidadão e produtor de cultura, e não apenas como símbolo de inspiração ou promessa de superação individual.

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