No dia de Iemanjá, três gerações unidas pela fé

Três gerações se unem para um mesmo ritual que seu Francisco, de 68 anos, participa desde os tempos da sua avó. Ele carrega as flores, as velas, os sabonetes, o mel, um pato, um pombo e um rato para consagrá-los a Iemanjá, um orixá africano considerado a deusa do mar para as religiões afro. Em Alagoas, os festejos acontecem em 8 de dezembro- dia de Nossa Senhora da Conceição, para os católicos.

Seu Antônio leva as filhas e parte dos doze netos à praia de Cruz das Almas, na capital alagoana. Todos são acompanhados pelo babalorixá Klébson Lopes dos Santos, o “Flor”. Desde os sete anos, Flor tem o mesmo “compromisso”- como diz- nas festas à Iemanjá: receber a entidade Odé, uma criança de três anos, que faz a “limpeza”, como chamam, “e tiram tudo e jogam para o mar”. Veja galeria de fotos no fim da matéria

Diante das flores, todos curvam um pouco os joelhos. Batem palmas. Flor se concentra. Retorce o corpo até assumir as feições e gestos de Odé. Primeiro, um pouco de mel é passado em suas mãos e espalhado pelo rosto. Então, ele passa os sabonetes em cada pessoa. Primeiro os mais velhos, depois aos mais jovens.

– Eles seguem a hierarquia familiar. Os adultos são os mais desenvolvidos no trabalho. Os mais novos aprendem com os adultos. São os iniciantes, diz a cientista social Ana Cláudia Laurindo, convidada pela reportagem a acompanhar o ritual, com autorização de seu Antônio.

Os sabonetes vão sendo colocados em uma cesta e recebem “um banho” de perfurme e desodorantes em spray. Seguem as flores. Dos mais velhos às crianças, os ramalhetes são passados pelo corpo, de cima para baixo, sempre por Odé

– Depois, ele se vira para a praia e vai ‘jogando’ tudo para o mar, explica seu Antônio.

Logo após, os animais. Todos devem ter a cor branca, sem outras cores. O pato, o pombo e o preá. Os animais são passados no corpo de todos, em seguida cada um deles é descartado para o mar. Não são sacrificados. O pato e o pombo, com as asas cheias de mel, não conseguem voar e caem sobre as ondas. As crianças se divertem.

Apesar de jogados ao encontro das ondas, todos fiscalizam os bichos: eles não podem morrer afogados.

– Eles acreditam que as energias chamadas de ruins passam para os animais, diz a cientista social.

No ritual, os pedidos: emprego, meninos ‘menos danados’, ‘coisas boas’ para dentro de casa.

A cerimônia termina uma hora depois, com Odé desprendendo-se de Flor. Rebeca, de quatro anos, está vestida com uma roupa verde e amarelo.

– Ela vai assumir o compromisso no futuro. Hoje, ela não aguenta receber a entidade, explica o babarolixá. Quando eu morrer ou antes, ela assume o compromisso.

No fim, as três gerações seguem para casa a pé. Seu Antônio espera voltar no próximo ano. Rebeca olha para o mar, tenta enfrentar as ondas violentas da praia de Cruz das Almas. Alguém pega em sua mão esquerda. É hora de voltar para casa.

.