No 6º Congresso Internacional de Educação de Maceió, o conferencista Philippe Perrenoud, teórico que tem embasado discussões sobre práticas educativas, abordou na tarde desta quarta, 02 de agosto de 2012, no Centro de Convenções, o tema “A ‘profissão’ de aluno e o sentido do trabalho escolar”.
Registrando partes de sua fala, compartilho suas ideias, no intuito de abrir acessos a debates sobre seu discurso.
” Nem todos querem aprender tudo. Pois nem todo saber é positivo. Por exemplo, no intervalo do nosso almoço morreram muitas crianças no mundo, em decorrência da fome. Quem gostaria de saber disso enquanto come? Não querer saber sobre isso é normal, pois podemos nos sentir culpados.”
“Nem todos querem aprender, pois isso tem um custo humano, intelectual, de tempo, trabalho. Renunciar uma aprendizagem é renunciar um risco”.
“Por que os alunos se protegem contra os saberes? A vida da criança e do adolescente é de relações, e o professor não está nessas relações. Esse comportamento não é patológico.”
” Ser aluno é uma condição perene. A escola é um caminho para o direito ao consumo oferecendo o status de aluno. Ninguém tem a liberdade de não ser aluno até os 15 ou 18 anos. Ser aluno é uma profissão?”
“Pode-se responder que não, pois não há salário nem produção. Contudo, de modo mais amplo, poderemos afirmar que sim, pois as profissões garantem acesso ao consumo e têm regras a serem cumpridas.”
“As crianças não vão mais para a fábrica ou para a agricultura porque vão para a escola. Na história da escolaridade obrigatória houve conflito entre o Estado e a família, pois a saída da criança do trabalho pesou na economia da casa.”
“Hoje, se o jovem diz: eu não quero mais estudar. Os pais dizem: então vai trabalhar e ganhar a sua vida! Muitas vezes o trabalho é suportar uma condição insuportável”
“A profissão também é uma maneira de limitar a demanda daquilo que pode ser feito. É um elemento de organização que a modernidade utilizou para nos fazer assalariados. Em nome da profissão, isso eu faço e aquilo eu não faço. Gera tensão.
A profissão de aluno não serve para o professor, que gostaria que eles a exercessem da forma como imaginam, prestando atenção, sempre em silêncio, fazendo trabalhos, ou seja, facilitando seu próprio trabalho.”
“O saber ser aluno é transmitido por gerações e gerações. Professor e aluno são duas profissões que acham que a outra parte tem poder demais.”
“O professor iniciante não admite meio termo. Ingênuo, afirma que tem autoridade, embora não funcione! Na verdade, os professores não precisam fazer com que os seus alunos se tornem seus amigos, mas não podem correr o risco de transformá-los em seus inimigos.”
“Ninguém pode ser muito duro e amado.”
“O aluno tenta se proteger porque aquilo que lhe proposto não faz muito sentido. A obrigação, ameaça, é comum na sala de aula. “Faça senão vai ter problema!” Esse é o grau mínimo de motivação. No fundo, um cálculo de interesse. Custa menos fazer, então eu faço e me livro de pagar o preço de não fazer. Mas essas não são condições para fazer um bom trabalho.”
“Sabor e saber têm a mesma raíz, são os dois lados da mesma realidade. O que aspiramos é o sabor, algo que dê prazer. E se faço porque não tenho escolha, não tem satisfação. O que permite identificar o que tem sentido? O que dá resultado.”
“Ter resultado, é adquirir poder sobre a realidade, o domínio de um processo. Quando vêem as crianças numa praia construindo um castelo de areia, vocês dizem que o mar vai derrubar tudo…mas, ao construir o castelo que vai resistir mais tempo ao mar, faz a tarefa parecer leve. A preocupação consigo próprio desaparece, e o sentido do tempo é alterado.”
“Há uma plenitude de sentido na aula quando toca o sinal e os alunos não ouvem, não saem correndo, são tomados pela atividade. Quando o aluno não vê sentido na aula, ele não está contra o professor. Não devemos ficar bravos, nem nos desinteressar por ele.”
“O sentido é algo que se desfaz e é refeito o tempo o tempo todo. Os ladrões de sentido são: stress, insegurança. Toda atitude humilhante do professor faz mal para o aluno. Um professor que não é apaixonado não apaixona! Se é entediado, entendia. ”
“Professores que têm uma prática extra escolar da disciplina, nos levam a ser professores.”






