Hoje uma amiga perguntou se eu já me senti inadequada e como administrava isso.
Tivemos uma prosa longa sobre o assunto e, resolvi compartilhar com vocês do grupo um pouco da minha opinião e vivência pessoal, porque talvez possa ajudar alguém de alguma maneira.
Inadequação sugere ser imprópria, desajustada, inferior. Ser vista (rotulada) e/ou sentir-se com esses adjetivos é mais que desagradável. É doloroso e cruel. De muitas formas afeta toda a nossa vida. E sim, a vida toda fui rotulada de inadequada e também já aceitei o rótulo e sentimento de inadequação.
A história da humanidade nos mostra que o mundo em diferentes culturas, inclusive a brasileira, trata a existência da mulher como “inadequada”. Essa é uma realidade que sentimos na pele de diferentes maneiras e quando olhamos para outras características, fatores e diversidades, para muitas essa inadequação é infinitamente pior.
Como Nordestina/Maranhense, parda (essa identidade tem uma história), primeira gravidez inesperada, casar praticamente por obrigação e depois Mãe solo se virando em mil pra dá uma vida digna aos filhos, nessa corrida injusta incontáveis vezes e de diferentes formas, me sentir inadequada, revoltada e exausta.
Na trajetória profissional sempre tive que provar a minha competência e mesmo assim era questionada. Trabalhei em uma empresa que tinha contrato com o banco central e fui a única a ser indicada por várias gerências como a mais capacitada técnica e habilidade de gerenciar conflitos para “apagar o incêndio” daquele contrato. Mesmo eu sendo contratada da empresa onde fui admitida através de processos de RH, sem indicação, com bagagem profissional para assumir o posto de “apaga incêndio”, passei por três entrevistas técnicas com gestores do banco. Ok, passado tudo isso fui fazer o meu trabalho e chegando lá a recepção foi horrorosa. Escutei piadinha do gestor do projeto e da equipe que era composta a maioria por homens, apenas uma mulher que tinha o comportamento alinhado ao restante da equipe. É claro que a minha vontade era de sair sem olhar pra trás, mas, como provedora da família isso seria um “luxo” inacessível para mim.
Após um mês de tentativa de intimidação e questionamento da minha competência, o gestor me chamou pra dizer que eu era uma Maranhense que tinha café no bule e que finalmente tinha uma mulher na equipe que sabia fazer o mínimo do seu trabalho. Respirei fundo. Chorei por dentro. Senti revolta. O rótulo de inadequada explodiu na minha cabeça. Bateu aquela revolta do mundo e do ser humano. Para ele aquilo foi elogio, pra mim não. E mais uma vez me contive, porque o primeiro pensamento que vinha era o fato de que os meus filhos só contavam comigo.
Eu poderia relatar diversos desafios que atravessei na vida ,os rótulos, peso de inadequada, os assédios morais e sexuais no trabalho, injustiças… Mas isso é longo demais.
Penso que o poder natural da resiliência que temos, mais a sabedoria do diálogo interno que avaliamos o que queremos ou não falar, e se faz sentido, vamos suavizando a caminhada no presente consultando o passado como uma poderosa base de dados de lições aprendidas que podemos acessar a qualquer momento para valorizar cada passo do presente, honrar e se orgulhar da própria história. E ok, mesmo assim falhamos, caímos, e tudo bem.
Uma Mãe solo tem suas prioridades definidas e é leal com todas as suas forças a essas prioridades, ou, tudo se perde, inclusive, e principalmente, ela mesma. Isso exige renúncias dolorosas e perdas irreparáveis. Essa conta ninguém consegue pagar. Simplesmente porque o passado não volta e os ciclos da vida não se repetem, não do mesmo jeito. Uma Mãe solo sabe que não existe essa de gerenciar tempo, o tempo está aí, livre, sem parar pra ninguém, simplesmente é o que é. Sabemos com maestria que o gerenciável são as prioridades, nossas ações e definição do que consideramos importante, e nada mais. Um dia tem 24hs e algumas pessoas nos questionam como conseguimos fazer tanto, não enxergam que muitas noites para nós é dia e fim de semana é segunda feira.
E sabe o que é pior? Quem está fora não ver a dimensão dessas travessias, as vezes nem a gente tem essa consciência, porque estamos na maior parte do tempo sob efeito de uma espécie de força imparável que nos faz ocultar o processamento da realidade e suas consequências. Seguimos caminhando sem olhar pra trás, e as vezes olha, mas não para. Não pode. Sim, não pode, porque mesmo quando se faz pausas, a cabeça continua, continuamos de algum jeito. Essa é a realidade na prática.
As questões em volta da inadequação são incontáveis. Tem um ensinamento budista que diz: “ um problema só existe quando olhamos e enxergamos ele […]”. Até por proteção, alguns passam uma vida carregando sentimentos e rótulos sem questionar. Uma amiga diz que tem momentos que é preciso se fazer distraída, porque se tivermos consciência do tamanho e até onde alcança as injustiças que nos fazem mais a corrida inacreditável do nosso dia a dia, não suportaríamos.
Como se fosse pouco, ainda temos que suportar pessoas presas em suas crenças e modelo de vida de que se atraímos uma situação a responsabilidade é toda nossa, alguns falam até em culpa. Se essa fosse a máxima, a justiça é o quê e para quem.? Sobre isso digo: Não. Não caia nessa. Não somos culpadas por atitudes dos outros, a parte que nos cabe é a de como e o que faremos com o que nos atinge e fere nossa vida e direitos. E só.
E sim, vamos nos sentir inadequadas e com mais uma montanha de sentimentos que contribuem para nossas quedas, fracassos, rebeldia e levantes necessários, resiliência.
É, tem dias que nos sentimos horríveis. Improprias, insuficiente. Uma fraude, sim, duvidamos da nossa capacidade e veracidade do que fazemos, mesmo depois dos esforços e lutas que travamos para viver. O mundo faz isso com a gente. Nós fazemos isso com a gente. E se não pararmos, olhar e enxergar, podemos fazer com os outros também. É automático. O automático pode nos jogar no “inferno” da estupidez fácil. O automático é fácil, mas não suave.
O que posso dizer novamente para minha amiga que está aqui no grupo e que passa por travessias semelhante a que já percorri, inclusive familiar e profissional é:
Tente ser leve e gentil com você, para seu próprio bem, faça esse exercício diariamente. Se falhar, ok, continue tentando. Somos poderosas e maravilhosas sim, mas não de aço. Um gesto, uma pequena ação pode mudar uma vida, ou muitas, inclusive a nossa mesmo.
Tudo passa.
Não subestime o tempo.
Não se superestime.
Não se subestime, nunca.
Vamos cuidar do que há dentro de nós, porque o que está fora a mudança é lenta e depende do outro.
Ajude e cuide de quem pode e deve proteger.
Questione sempre.
Ame. Se ame!
Faça pausas.
Continue caminhando.
Sonhe muito, e alto. Seja realista. Se coloque na vida como aprendiz e sorria dos tombos. Acredite na justiça. Se vista e respire JUSTIÇA!
Renasça!
Abaixe a cabeça só se for pra rezar. E nada mais.
Você não está sozinha, acredite!
Eu espero que faça sentido pra ti, amiga.
Ah, seja inadequada sim! Seja sem limite, porque quem tem limite é cidade. Você é galáxia.
