As doses diárias de indignação e repúdio nos fazem bem? O que está sendo distribuído em termos de sentimentos ao brasileiro pensante, pode ser destruidor da saúde mental, da esperança em um amanhã?
Perguntar ainda não é crime. Embora questionar já esteja se tornando. Esse Brasil complexo, pode ser analisado em partes. Podemos encontrar o caminho embaralhado pelo poder. Mas não será com pressa, como eles hoje estão tomando o cenário formal e simbólico da nação, porque estão aproveitando os favorecimentos dos ventos ideológicos a partir dos lugares de decisão onde conseguiram chegar.
O passado é mais do que acessório para museus. O passado é possibilidade de mapeamento, e olhar para ele nos permite rever caminhos. Reencontrar essências. Reconhecer erros. Mas acima de tudo, lembrar que caminhamos, enfrentamos outros “vales da sombra e da morte” e desenvolvemos força.
Está óbvio para nós o fenomênico de agora. As forças de manipulação e aquelas que ficaram fetichizadas em serem manipuladas. Líderes, povo, massa eleitoreira. Ícones antidemocráticos empoderados pelo desespero em punir. Ameaças constantes de caos, semeadura da descrença, e como resultado rápido, a desestabilização do eixo humanitário, social, politicamente concebido como correto.
Após a dor histórica causada pela ditadura militar, a redemocratização acendeu o lume do trabalho comunitário e a retomada do fazer cultural como plataforma de esperança popular.
O termo “popular” estava espalhado no país. Era um chamado valorativo.
A investida da esquerda em 1989 encontrou base “popular” coesa, foi capaz de enfrentar a “tradição” ligada ao modelo ditatorial e uma das campanhas políticas mais envolventes da história, preparou Lula para a presidência anos mais tarde.
O avanço liberal chegou sorrateiro. Mapeou os campos de “convergências populares” e investiu na dispersão com manejo político.
A força do dinheiro escolheu pregar a “prosperidade” pela fé.
Já não seria a luta social nem mesmo o perfil crítico, cidadão, quem movimentaria a energia política no meio do povo, que passou a desprezar os chamados “populares” e aderiu aos conglomerados “salvíficos” e “coloríficos”, entre outros.
O campo enfraquecido, rapidamente foi demonizado. Criar mitos repugnantes sempre deu efeito político rápido. E a boa educação, atividades culturais e outras bases importantes de preparo civilizatório com sensibilidade histórico/social, passaram a ser contidas, discriminadas, perseguidas e diminuídas no Brasil.
As vitórias se tornaram posses de guetos.
A comunidade perdeu caráter agregador.
A cultura das redes sociais distribuiu mais ódio do que os aviões das usinas distribuíram agrotóxicos sobre os canaviais e as pessoas, de 2014 para cá.
A direita entendeu que ser extremista seria oportuno. O ódio desfilou sem roupas e foi aplaudido por cristãos.
Assim constituímos o que hoje chamam de “o pior congresso brasileiro”, contudo, ele não se ergueu do nada.
Os negócios políticos que misturam todos os interesses e reúnem na mesma mesa de balcão nomes da direita e da esquerda tomaram os destinos do país desde a República. Será mesmo que o “pior” pertence ao hoje?
Como estrada (ainda) aberta restam os feitos endógenos nos campos da cidadania, que traduzindo, significa mesmo que serão as insistências e lutas pelas políticas de qualificação da vida, nossa saída, para a retomada histórica da força “popular” mais adiante.
Agora não teremos votação favorável a nenhum projeto de interesse “popular”, por mais que estejamos indignados.
Transformar a dor histórica em ações pontuais é o jeito de não morrer com o veneno antidemocrático que permeia a política brasileira desde os rincões até Brasília.
Portanto, salve sua alma sonhadora e se compreenda pessoa engajada no projeto, desde o chão onde pisa. Porque Brasília agora é deles. Mas a campanha política contrária é nossa.
Sobreviva! Precisamos do seu diálogo esperançoso, da sua música, da sua poesia, da sua arte; da educação bem feita, da reunião de inteligências livres, para conectar existência e política, com reflexo no partidarismo.
Cada pessoa cidadã é uma rara força de renovação, com possibilidades de participação real, a partir de dentro; onde a vida dorme e acorda com os pés no chão.
