Dilson Ferreira
O que temos visto no Brasil não é apenas uma mudança na paisagem religiosa. É muito mais profundo do que isso. Trata-se de um fenômeno de alienação social e política travestido de religiosidade. E é fundamental fazer essa distinção com responsabilidade.
A Igreja Católica, com todos os seus problemas históricos, sempre trabalhou com o conceito de coletividade. Sua doutrina gira em torno do bem comum, da justiça social e da ideia de comunidade. O mesmo vale para as igrejas protestantes clássicas, como batistas, presbiterianas e metodistas, que atuaram em projetos coletivos de educação, saúde, assistência e organização popular.
Nas igrejas neopentecostais, a lógica é diferente. Elas operam com uma teologia individualista, baseada no sucesso pessoal. A mensagem central é clara: se você não prosperou, a culpa é sua, se você venceu, é porque teve fé, deu o dízimo e fez por onde. Não se fala em estruturas injustas, desigualdade histórica, racismo, fome ou miséria como resultado de um modelo econômico. Fala-se em maldição espiritual, em falta de fé ou na ação do inimigo.
E quem é esse inimigo? O inimigo é sempre alguém externo, a esquerda, os católicos, os espíritas, os umbandistas, os indígenas, o vizinho que discorda. É uma construção simbólica que reforça a intolerância e transforma o diferente em ameaça. Isso é grave, porque desumaniza o outro, despolitiza a realidade e bloqueia qualquer visão coletiva de sociedade.
Além disso, a lógica neopentecostal é pragmática. Aceita empresários corruptos, políticos oportunistas, milicianos e criminosos confessos, desde que se adequem às regras, façam suas doações e se submetam ao discurso institucional. O passado é perdoado sem questionamento ético, porque o foco não é a transformação de vida com responsabilidade social, e sim o ajuste à lógica da instituição.
O que se vende não é fé. É adesão. É fidelidade institucional em troca de perdão e promessas de sucesso. Isso não tem relação com espiritualidade. Isso tem relação com poder.
Esse modelo de religião está alinhado ao neoliberalismo, ao culto ao mérito individual, à negação da estrutura social, à promoção da culpa pessoal e ao desmonte do senso de comunidade. Não por acaso, esse discurso é funcional ao bolsonarismo, ao conservadorismo extremo e a um projeto de sociedade onde o pobre se culpa, o rico é celebrado e o coletivo desaparece.
É preciso dizer com todas as letras: não se trata de fé, trata-se de alienação. Uma alienação que enfraquece a consciência crítica, destrói o espírito comunitário e faz com que milhões aceitem a miséria e a desigualdade como prova de fé.
Não se combate isso com ódio, mas com consciência, com educação, com debate público sério e com coragem para dizer que uma fé que não liberta, aprisiona.
