Repórter Nordeste

Na periferia, voto vale de 'cervejinha' a reforma da casa

Preço do voto em Maceió: nos bairros do Canaã, Santo Amaro e Benedito Bentes, ele custa R$ 50. Vale também uma cerveja. Balançar a bandeira de um candidato? R$ 20.

No bairro do Canaã, o voto é mais caro. Uma mulher- que pediu para não ser identificada- mostra os adesivos em sua casa. São de três candidatos a prefeito. Ela diz que cada um prometeu construir uma parte da casa- um “prédio”, como chama, de dois andares.

“A um pedi o piso. Ao outro, o forro. E o outro vai me dar os banheiros. É claro que eles não sabem. Fique caladinho, viu?”, diz a mulher à reportagem.

No interior- ela cita Boca da Mata- uma parente dela tem “15 filhos”: “Os políticos ficam doidinhos atrás. E ela já trocou o piso. Veio um lá e ofereceu. Ela aceitou. Ele disse que passava depois da eleição. Ela é esperta. Só queria se fosse no outro dia. Ela disse assim: ‘Venha logo que o outro candidato já tá chegando’. Ela manda no voto dos filhos”, disse a dona de casa.

A 50 metros está a escola estadual Josefa da Costa.

“O senhor é quem vai anotar os nomes para a gente? È o senhor quem paga?”, pergunta outro, no bairro do Canaã. Um simples bloco nas mãos, com uma caneta, parece uma “senha”- e inspira quem quer vender o próprio voto.

Por dia, a sede da Polícia Federal em Alagoas recebe uma denúncia de compra de votos. Em um mês, são 30. E faltam três meses para os eleitores irem às urnas.

“Apesar de prosseguirmos com as investigações, garanto que esta eleição não será tranquila, já que estamos vivendo um momento conturbado de irregularidades, que acirram ainda mais os ânimos dos candidatos”, disse um agente policial.

Segundo as investigações sigilosas dos agentes federais, o voto em Alagoas é “tabelado”. Custa R$ 50. Esquema mais comum, em especial nas cidades mais pobres é oferecer ao eleitor um cartão, que deve ser passado na frente da tela da urna eletrônica ou ao lado da máquina “como um cartão de crédito”, disse um agente da PF.

“Ali, o eleitor é instruído a acreditar que o cartão ‘fotografa’ o voto, mostra ao candidato, que põe contra o sol para “comprovar” o que não existe- o voto fotografado na urna. É tudo uma farsa”, disse o agente da PF, sob anonimato.

A Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Alagoas (OAB/AL), investiga uma derrama de dinheiro em cidades do interior. São candidatos que declaram milhares de reais em seus limites de gastos ao TSE. Dinheiro que, para a OAB, é para ajudar, também, a “irrigar” os bolsos dos eleitores.

“É tudo sofisticado. Ninguém pense que o candidato vai chegar com a mala preta, cheia de dinheiro, e jogar em uma cidade. Nada disso. O político contrata um cabo eleitoral, que faz um cadastro com 400 e 500 eleitores. O cabo eleitoral trabalha no gabinete do candidato e recebe dinheiro público”, disse o presidente da Comissão de Combate à Corrupção Eleitoral, o advogado José Firmino de Oliveira.

Ex-jornalista e ex-juiz eleitoral aposentado, Oliveira se surpreende com a imaginação dos criminosos do “mercado sujo do voto”:

“Um cabo eleitoral recebe, por exemplo, R$ 2 mil, que é rateado por duas ou três pessoas. Outro caso é o prefeito, eleito e reeleito e que troca o domicilio eleitoral e é candidato em uma cidade vizinha”, disse Oliveira.

Por que isso acontece? “Porque a política no Brasil virou emprego, com ampla vantagem financeira. E, claro, para alcançar a vaga, vale tudo. Até eles serem pegos”, afirma o presidente da Comissão.

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