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Na Líbia, eleições em junho versus força dos rebeldes

Terra

A Líbia planeja realizar eleições gerais em junho, o que o governo interino, comandado pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), chamou de “caminho rumo à democracia”. Mas após a luta armada que derrubou o regime de Muammar Kadafi no ano passado, vários grupos rebeldes se recusaram a entregar suas armas, constituindo um sério risco ao poder central da capital Trípoli e ao futuro democrático no país.

Ali Abdel Bassem, 43 anos, não teve dúvidas quando milicianos começaram a tomar conta da vida cotidiana em Misrata, na costa central da Líbia (entre Trípoli e Benghazi). A presença de homens armados nas ruas, muitos meses após a derrubada de Muammar Kadafi, era o sinal de que algo não iria bem. “Era para terem entregado suas armas ao governo, mas parece que tomaram a inciativa de serem uma autoridade à parte”, disse Bassem ao Terra por email.

Sitiada durante meses por tropas leais a Kadafi, Misrata resistiu ferozmente aos bombardeios e consequentes mortes de civis e rebeldes. Após o conflito, milicianos se recusaram a entregar seus armamentos, e seus comandantes vêm entrando em constantes discussões com o governo interino, fazendo exigências que vão desde pagamentos por capturas de ex-integrantes do antigo regime a benefícios políticos pessoais ou para suas cidades natais.

Bassem decidiu levar sua família para Benghazi, a segunda maior cidade do país e berço da luta rebelde contra Kadafi. “Não aguentava ver homens armados nas ruas, uma sensação de terra sem lei. Em Bengazi a presença deles é bem menor e há uma autoridade central”, enfatizou.

A Anistia Internacional descreveu as milícias como “amplamente fora de controle”, com grupos bem armados que representam uma séria ameaça à precária estabilidade da Líbia. Outros descrevem as milícias como um flagelo em um país marcado por vinganças e rivalidades tribais. “Viajando em caravanas por estradas do interior desértico ou nas cidades, as milícias não mostram qualquer respeito às autoridades”, falou o analista político independente Shamsedine al-Tanouri, em Trípoli.

Políticos de fardas
Os líderes das diversas milícias pós-Kadafi transformaram-se no grande obstáculo para uma Líbia unificada, na visão de muitos líbios como Bassem. Há o medo de que suas tropas poderiam prejudicar as eleições, que seriam a base incial para uma nova democracia no país.

Recentemente, um líder de uma milícia da cidade de Zintan, nos arredores de Trípoli, e que controlava o aeroporto internacional da capital, anunciou que entraria na política e se candidataria nas eleições. O aeroporto foi entregue à autoridade do governo em março, após intensas negociações.

“O problema é que ele tem seus mais de 1,2 mil homens armados como seguranças, e muitos vêem isso como uma mostra de poder tribal e não de democracia”, disse o analista Shamsedine al-Tanouri.

Mas não são apenas em cidades menores que as milícias mostram sua força (ou intimidação). Segundo al-Tanouri, na capital do país, o chefe do conselho militar fundou um partido político, enquanto que o conselho militar de Benghazi planeja lançar seus candidatos para os postos locais nas eleições.

“É perturbador e preocupante ver chefes de milícias, que são nada menos do que líderes tribais, se converterem em políticos de fardas. A mentalidade é a mesma, não há uma noção de democracia”, salientou. Muitos chamam as milícias de “gangues armadas”, trocando tiros nas ruas da capital, detendo e torturando suspeitos de serem simpatizantes de falecido ex-ditador Kadafi e há poucas semanas até sequestrando dois membros do CNT por dois dias.

Esperanças
Para Ali Abdel Bassem, a fuga para Benghazi teve o sabor de derrota, já que após o conflito sua esperança era de ver sua cidade natal Misrata muito diferente do que era durante os meses de guerra civil. “Tive a esperança de ver uma nova Líbia sem chefes de guerra, sem milícias e sem medo. Hoje, não sei se as eleições trarão um futuro”.

Outro preocupado com os rumso do país é Zuhair al-Barir, que mora em Zawiya, na região metropolitana de Trípoli. “Constantemente vejo barreiras de milicianos que revistam carros e prendem pessoas que eles julgam suspeitas. Moradores têm medo de denunciar seus atos com medo de represálias”, disse ele ao Terra.

Sem uma força policial forte ou um exército nacional, muitos civis mostram-se preocupados de que as milícias podem assediar os eleitores a votar em seus candidatos ou, simplesmente, influenciar ou boicotar o pleito.

Segundo al-Barir, um policial se recusou a mostrar sua autoridade a um grupo de milicianos quando moradores se mostraram descontentes com uma celebração deles com tiros para o alto. “Ele ficou nervoso e temeroso que os homens armados pudessem retaliar contra seus familiares”.

Após 42 anos de regime autoritário de Kadafi, os líbios almejam, com esperança, um futuro de progresso e liberdades individuais. “Mas certamente que as rivalidades tribais e milícias poderão causar sérios danos ao rumo democrático, mesmo que este seja imperfeito. Só resta aos líbios esperar que o govenro interino negocie e convença os chefes militares de que a as armas devem silenciar e o diálogo prevalecer”, disse o analista al-Tanouri.

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