O que parecia ser apenas mais um dia de atualizações sobre celebridades nas redes sociais esconde, nos bastidores, uma complexa engrenagem de influência política.
Documentos e mensagens obtidos pela Folha de S.Paulo revelam que prestadores de serviço ligados à Mynd, uma das maiores agências de marketing de influência do país, negociaram a veiculação de conteúdos favoráveis ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em perfis de fofoca de grande alcance.
As tratativas, iniciadas no final do ano passado, envolveram pacotes de publicações que misturavam notícias sobre a redução da criminalidade no estado e pesquisas de aprovação que colocavam Tarcísio à frente de figuras como o presidente Lula e a família Bolsonaro.
O “cardápio” oferecido aos administradores de páginas incluía até posts sobre o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A engenharia por trás dos “feeds”
No centro das negociações está Kamilla Cunegundes, relações públicas que atua junto à Mynd. Em conversas via aplicativos de mensagem, ela chegou a orçar “quatro feeds” semanais para um cliente não identificado, sob a justificativa de que estava apenas fazendo uma intermediação.
A investigação aponta para uma rede que conecta a agência Mynd à empresa Deu Buzz, de propriedade de Artur Moreno e Radamés Keller — donos da página Fofoquei, que acumula mais de 7,5 milhões de seguidores.
Um detalhe que chama a atenção é a figura da Submarino Lab, empresa que teria orçado conteúdos para o governador. Sua única sócia formal, Vanessa Aparecida, declarou recentemente em um processo trabalhista ter trabalhado como recepcionista com um salário de R$ 2 mil, apesar de a empresa movimentar cifras e negociações de alto nível.
O ponto mais sensível da denúncia reside na ausência de sinalização publicitária. O Código de Defesa do Consumidor exige que qualquer conteúdo pago seja identificado, mas os posts sobre o Rodoanel e outras bandeiras da gestão Tarcísio apareciam organicamente entre fofocas de artistas.
Especialistas alertam que, se comprovado o uso de poder econômico para influenciar a percepção pública fora das regras eleitorais, o caso pode escalar para a Justiça Eleitoral com foco no pleito de 2026.
Além de Tarcísio, nomes como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira também ganharam espaço “positivo” nessas páginas, embora ambos neguem qualquer pagamento ou relação com os perfis.
O outro lado
Em nota, o Governo de São Paulo negou categoricamente qualquer investimento público nessas publicações, afirmando que suas campanhas são estritamente institucionais.
A Mynd, por sua vez, declarou que não atua em campanhas eleitorais e que abriu uma apuração interna sobre a conduta dos prestadores de serviço citados, reforçando que possui mais de 15 mil fornecedores cadastrados sem exclusividade.
