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Mulheres e lutas, por Maria Cristina Rivé

Era 1999. O cenário, os arredores da Universidade de Londres. Ocorreu um assalto. E a vítima, uma estudante chinesa, relutou em entregar seus pertences.

Alguém perguntou: – Por que não entregaste a bolsa? Sua vida é mais importante que um livro.

E ela: – Em muitos sentidos, o meu livro era a minha vida… Ao lutar pela bolsa, eu estava defendendo MEUS sentimentos e os das mulheres chinesas.

Esta história foi contada por uma jornalista, de nome Xinran.

Recordações…

Quando alguém mergulha nas próprias recordações, abre uma porta para o passado. A estrada, lá dentro, possui muitas ramificações, mas a cada vez o trajeto é diferente. E eu digo que, a cada vez, a dor é mais intensa.

Certa feita, a mesma jornalista recebeu um presente: um diário, contendo uma carta manuscrita e, junto, uma pena de galinha. Na tradição chinesa, este objeto simboliza um pedido urgente de socorro. Na carta, um menino escreve à Xinran e conta que, em sua aldeia, um velho aleijado comprou uma esposa. A prática é muito comum naquele lugar e, em geral, as mulheres fogem. O homem, então, com receio que ela assim procedesse, acorrentou a “mulher”. Uma grossa corrente em volta de sua cintura. Ela ocasionou um machucado, a cintura sangrava e ficou em carne viva. Ela, então, pensa que aquela criatura, provavelmente, irá morrer devido à gravidade dos machucados. A “mulher” tem apenas 12 anos. O menino pede, então, ajuda e solicita que ela não conte a ninguém.

Mas, ao tomar conhecimento da carta, a jornalista contata a polícia. E dos oficiais ela ouve: – Se todos reagissem como a senhora, nós, aqui, morreríamos de trabalhar. Situações como essa são, infelizmente, muito comuns”. Mais do que possamos imaginar…

Xinran escreveu um livro com muitos destes relatos. Ela também apresenta um programa de rádio – “Palavras na Brisa Noturna” – onde são abordados aspectos do cotidiano. Ela, então, vai relatando suas experiências e histórias como esta, a fim de ganhar a confiança e levar um alento a seus ouvintes, ofertando meios de lidar com as dificuldades da vida.

E ficamos a nos perguntar: – Qual o papel das pessoas ao tomar ciência de histórias assim? Qual o papel dos Espíritas nesse caso?

Entendo que os espíritas – assim como os indivíduos em geral – não deveriam aceitar a normalização da violência, da punição, do desprezo, da agressão física ou da agressão verbal. Não se pode, jamais, baixar a cabeça, fechar os olhos, deixar passar… O pedido de socorro em nossa sociedade é real! E, em muitas casas com ares de normalidade pode existir a mutilação entranhada em vivências cruéis a desrespeitar os mais suscetíveis.

Na cultura chinesa há um outro dito peculiar: “No interior, o céu está no alto e o imperador está muito longe”. Qual o significado desse enredo? É que as pessoas fazem o que querem, porque “Deus não está vendo”. Ele está longe… Ele é um velhinho muito ocupado com a Criação e haverá coisas mais importantes a se ocupar, dizem muitos. Alguns espíritas, até…

Isto porque muitos são os que fecham os olhos, acostumados pelo “Espírito de Matilha”. São os que se conformam em serem guiados pela onda conservadora, na qual estamos imersos, para reproduzir velhos conceitos e antigos modelos de desajuste e de dor. Os espíritas em geral se afiguram como aquele grupo que anda sempre com os olhos fechados e a cabeça baixa, sem qualquer renovação, à espera de um mundo de regeneração que não chega… Ora, para que ele chegue há que se mudar as perspectivas e as atitudes e os olhos devem estar bem abertos, as cabeças levantadas e as mãos postas em ação.

Voltando ao adágio chinês, o Céu figura no alto, porque Deus não sabe; e o imperador está longe, pois as leis são impostas e desconhecidas. Basta ver como ocorre no cenário social, em que inexiste construção coletiva e a maioria da população é excluída das decisões e, também, do direito de viver com dignidade. O egoísmo, então, impera e a menor conquista serve para sobrepujar as outras pessoas sem entendermos que o verdadeiro crescimento e a verdadeira realização estão no coletivo, no social, na Humanidade. A desumanização igualmente é uma realidade; para tanto basta pertencer às minorias: gênero, etnia, sexualidade, classe social…

O livro de Xinran menciona que aquela menina foi resgatada graças a um fornecedor de fertilizantes, que ameaçou os aldeões a não mais entregar o produto se não deixassem a polícia libertar a menina. O exemplo serve para nossa reflexão no sentido de que, como reagiríamos nós em uma situação análoga.

Pergunta-se, em face de todo o exposto: quanto vale uma mulher na China? Ou, quanto vale a vida feminina no Brasil, ou em qualquer outra parte do Planeta? Há os que podem dizer que depende do seu status. Penso que não! Pois mesmo as que nasceram ou nascem em ambientes mais prósperos sofrem tal abuso e essa diminuição em relação ao masculino. Contudo, e isto é o mais grave, várias mulheres corroboram para manter ou sustentar esse ambiente daninho, que massifica, despersonaliza e coisifica a mulher.

Em nosso país, hoje, 2022, as políticas públicas inexistem ou são desmontadas lentamente e as mulheres são frequentemente atacadas em sua integridade e em suas possibilidades. No comando da nação, um grupo misógino, racista, homofóbico… No dia 8 de março, o “Dia Internacional das Mulheres” ouvimos a fala aviltante de que “as mulheres estão se integrando na sociedade”. Fala artificial, encenada. Infelizmente, um discurso aplaudido, também, por mulheres, as quais, muitas não entenderam ou desmerecem a razão de existir o “Dia das Mulheres”. Porque elas esquecem da necessidade de projetar as dores, a exclusão, a humilhação e o desmerecimento pelos quais muitas passam. Ou todas passamos. A dor de aceitar caladas e submissas qualquer imposição não deve mais ser sentida.

É o: – Vem, vamos caminhar juntas! Vamos nos unir e projetar e, depois, construir um mundo mais humano onde tudo que existe tenha voz e tenha vez.

Então, “Que Deus me proteja da maldade de gente boa”.

Que Deus nos proteja!

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