Mudanças climáticas e políticas estaduais

Os Estados precisam legislar e investir em medidas sobre as quais têm competência, como no auxílio ao combate ao desmatamento ilegal, melhorias e desenvolvimento de políticas públicas para o setor de transporte e implantação de programas para a melhoria do uso de energia elétrica em prédios públicos

Claudio J. D. Sales – Estadão

Em  tempos em que mudanças climáticas são um dos assuntos mais debatidos, o  Brasil assumiu papel de destaque e, em 2009, durante a Conferência das  Partes em Copenhague (COP-15), adotou metas voluntárias de redução de  gases de efeito estufa muito antes de outros países que também não têm  metas obrigatórias. O Brasil é o terceiro maior emissor de gases de  efeito estufa do mundo, com um volume que representa 5% das emissões  globais, ficando atrás apenas da China e dos EUA, o que mostra a  relevância do tema para o País.

Em decorrência de tal relevância,  em 2009 o Congresso Nacional aprovou a Política Nacional sobre Mudança  do Clima e os Estados passaram a discutir e sancionar suas políticas  estaduais visando a disciplinar o assunto na esfera regional. Algumas  políticas estaduais estão legislando sobre temas para os quais não têm  competência, como, por exemplo, a expansão do setor elétrico. Os Estados  estão definindo metas de redução de emissão de gases de efeito estufa  ou medidas de compensação de emissões para o setor elétrico  desconhecendo completamente a lógica de funcionamento do setor.

A  geração de energia elétrica no Brasil é fortemente dependente de  recursos naturais, e 80,6% dessa geração ocorre a partir de  hidrelétricas. A participação de geração eólica e de termoelétricas a  biomassa é menor, mas cresce a cada leilão promovido pelo governo. No  entanto, apesar da alta participação de fontes renováveis, o País não  pode ficar totalmente dependente de formas de geração de energia  elétrica que estejam sujeitas a condições climáticas. É aí que surge o  papel das usinas termoelétricas movidas a combustíveis fósseis como  carvão mineral e gás natural.

O Brasil precisa do que o setor  chama de “complementação térmica”, situação na qual usinas  termoelétricas permanecem a maior parte do tempo sem gerar energia, mas  assumem o fornecimento de energia elétrica na falta de água ou vento. O  pouco tempo que elas geram eletricidade é que define a contribuição do  setor elétrico para as emissões de gases de efeito estufa. Essa  contribuição, em 2005, foi de 1,2% das emissões totais brasileiras.

Além  disso, algumas políticas estaduais desprezam uma característica do  setor elétrico brasileiro: a sua complexa rede de transmissão. As linhas  de transmissão conectam praticamente todo o País, fazendo com que seja  indiferente o local da construção de uma usina. Assim, o “benefício”  alardeado pelas políticas estaduais para justificar as medidas de  redução de emissões de gases de efeito estufa não se materializam. Além  disso, é preciso entender que o efeito dos gases de efeito estufa são  globais, e não localizados num Estado ou município.

Portanto,  quando um Estado cria barreiras para a construção de uma usina  termoelétrica – na forma de compensações ou captura de gases de efeito  estufa -, não está criando soluções, mas aumentando os custos para o  consumidor de energia. A usina é necessária e será construída no Estado  vizinho e, em algumas situações, longe da fonte de energia (gás natural,  carvão mineral), aumentando os custos de transporte da fonte e da  transmissão de energia elétrica.

Sem desconsiderar a autonomia dos  Estados como um princípio constitucional a ser garantido, o governo  federal precisa coordenar a definição das políticas sobre o tema e  evitar custos adicionais para a sociedade. Discussões sobre leilões  regionalizados e leilões por fontes estão em pauta e devem ser tratadas  em âmbito nacional, com a participação dos Estados, mas com um viés  técnico, sem politização.

Os Estados precisam legislar e investir  em medidas sobre as quais têm competência, como no auxílio ao combate ao  desmatamento ilegal, melhorias e desenvolvimento de políticas públicas  para o setor de transporte e implantação de programas para a melhoria do  uso de energia elétrica em prédios públicos. O papel dos Estados é de  apoio e complementação à política nacional.

Se essa lógica for seguida, todos ganharão: União, Estados e consumidores de energia.

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