A mudança radical nas áreas rurais de Alagoas não pode ser explicada sem passar pelo fechamento das usinas. Nos últimos anos foram as do grupo João Lyra – Guaxuma, em Coruripe; Laginha, em União dos Palmares; e Uruba, em Atalaia, esta reaberta como Coopervales; e a Usina João de Deus, em Capela; logo depois foi a paralisação das usinas Roçadinho, em São Miguel dos Campos; Cansanção Sinimbu, em Jequiá da Praia; Triunfo, em Boca da Mata; e a destilaria Porto Alegre, em Colônia Leopoldina. Mais recentemente, fecharam as usinas Cachoeira, em Maceió; Paisa, em Penedo; Capricho, em Cajueiro.
Mesmo antes do fechamento destas usinas, parecia existir um ambiente preparado para o ocaso destas empresas. Em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), para habilitação em Jornalismo, Wende Evangelho mostra que, em 18 anos, foram perdidos 160 mil hectares de área plantada da cana de açúcar.
Na safra 1986/1987, a cana ocupou 680 mil hectares; no início dos anos 2000, foram 460 mil hectares. Em 2018/2019, é a previsão da safra, estão projetados 301 mil hectares, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A produção vinha caindo. Na safra 2010/2011, eram 29 milhões de toneladas de cana; em 2015/2016, 18 milhões. A Conab prevê nesta safra 13 milhões de toneladas.

Alagoas tinha 30 usinas; hoje, são 17. Apenas quatro moeram na safra 2017/2018. “Este é o panorama da principal atividade agrícola do Estado: redução da área plantada, encolhimento da produção e desativação do parque fabril”, diz Evangelho.
Todo este panorama obrigou quem dependia direta ou indiretamente das usinas a procurar novas formas de sobrevivência.
O relatório “Diversificação Agrícola na zona Canavieira de Alagoas”, elaborado pelo Governo, aponta que nas 52 cidades onde a cana-de-açúcar ainda é produzida “existe um fato novo e irreversível”: “uma oportunidade para o desenvolvimento da agricultura familiar e da produção de alimentos em Alagoas”.
Esse fenômeno é identificado nos últimos 4 anos. E uma das principais explicações é a redução drástica da área de plantação da cana (- 22,5%) e na produção (- 19,2%). Essas áreas estão sendo substituídas por novas culturas.
Em Coruripe, por exemplo, a produção de milho cresceu 21 mil %; a área disponível para o plantio esticou 3 mil%. Isso apenas em 2015. Foi neste ano que a produção de milho saltou de 28 toneladas para quase 6 mil toneladas.
Campo Alegre é outra cidade a registrar um salto extraordinário na produção de mamão: mais de 12 mil % num intervalo de 10 anos. Em Junqueiro essa variação foi de 41. 800%, em uma década, na produção de soja.
Estas iniciativas ainda são muito ligadas ao conhecimento empírico dos produtores. Diferente, por exemplo, da cana-de-açúcar em que existem pesquisas sobre novos tipos da planta, sofisticando a lavoura, no ambiente da agricultura familiar a realidade é outra.
“O que percebemos durante a pesquisa é que o produtor “escolheu” determinada produção baseado em seu conhecimento empírico e rede de relacionamento no mercado, buscando de fato num primeiro momento um caminho mais fácil a produção e comercialização”, afirma Eugênio Gomes, um dos responsáveis pela pesquisa no Governo.
A maioria transformou este momento, diz o pesquisador, numa espécie de laboratório.
“Alguns por meio da experiência irão continuar a diversificação. Mas houve o movimento que ainda carece de estruturação”, analisa.
Isso porque, na análise de Eugênio Gomes, faltam estudos de mercado que meçam as necessidades da região e de outros locais; não se sabe exatamente o potencial dessas áreas de cana; faltam projetos de investimento para geração de alto valor agregado junto à produção local aumentando a competitividade e a geração de riqueza; aos agricultores familiares, ainda é preciso ações que colaborem na organização e sustentabilidade desses grupos, por exemplo, em associações e cooperativas viabilizando programas de qualidade de produção e acesso a novos mercados.

É como se ainda tudo estivesse no começo. Produzimos macaxeira, por exemplo. Mas não temos ideia quanto desta macaxeira vai para as mesas alagoanas ou outros estados.
“Percebemos esse processo de importação de produtos básicos que vem de Petrolina – PE e Juazeiro – BA etc. Muita coisa, que Alagoas pode e deve produzir com tranquilidade, está sendo importada de lá”, reflete Eugênio.
“Isso vem mudando desde 2015. Existe produção destas 52 cidades que colaboram muito com o consumo interno e já tem transformado a realidade. 2015 é o ano em que o processo sustentado de redução da área destinada a plantação da cana, bem como, a sua produção, sofre brusca e firme redução. Assim, a diversificação é um fato irreversível. O produtor já compreende o melhor retorno e rentabilidade. O que precisa ser feito é um melhor planejamento da produção e na comercialização com o melhoramento da infraestrutura das feiras livres”, detalha.
Antônio Dias Santiago, ex-secretário de Agricultura do Governo Renan Filho, é considerado um dos melhores quadros em Alagoas quando o assunto é agricultura familiar. O pesquisador também foi um dos responsáveis pelo relatório “Diversificação Agrícola na zona Canavieira de Alagoas” e crê em um momento diferente no campo. Mas, para ele, ainda não é possível dizer que o ciclo da cana de açúcar está chegando ao fim.

“Longe disso, a cadeia produtiva da cana-de-açúcar, apesar de toda a crise que vem enfrentando é muito sólida em Alagoas”, acredita. O açúcar é uma commoditie e o etanol é dependente da política de preços da Petrobrás. Porém, segundo ele, existem fortes transformações que não podem ser desconsideradas.
“A monocultura, independente da atividade principal, sempre é muito arriscada. Essa é a razão que defendemos a diversificação do setor ou melhor, da área cultivada em nosso Estado. Alagoas é conhecida por importar grande parte de todos os produtos consumidos pela população e também importa os componentes básicas da alimentação animal, milho e farelo de soja”, explica.
Só que ele lembra que um dos pilares do setor sucroalcooleiro é a intensidade e a regularidade das chuvas. “Nos últimos sete anos, com exceção de 2017, não foi favorável ao crescimento e desenvolvimento da cana-de-açúcar, mesmo com aumento do uso da irrigação em nossos canaviais”, analisa.
Há muita pesquisa e planejamento em prática na diversificação das culturas. Fornecedores de cana, por exemplo, e empresários rurais cultivam frutas, grãos raízes, criam peixes e gado. “Essa última atividade já é realidade principalmente nas áreas acidentadas que impedem a mecanização da cana-de-açúcar”, conta Santiago.
“Temos um exemplo atual que a mudança de atividade agrícola é possível. Arapiraca que na década de noventa sentiu a necessidade de buscar soluções para o campo, pois, a principal cultura econômica ali desenvolvida era o fumo, e hoje a região, e não somente o município de Arapiraca é responsável pela produção e abastecimento das feiras e supermercados de folhosas e condimentares, além de ter se tornado uma grande produtora e exportadora de mudas de hortaliças”, afirma o ex-secretário.
O cenário é bastante favorável para à diversificação de culturas em Alagoas. Isso porque temos um número significativo de fornecedores de cana “e que não tem como adotar todas as técnicas modernas de produção, a exemplo de irrigação e adubação, e que tem como consequência baixíssima produtividade agrícola”. Por outro lado, “temos em Alagoas um elevado número de assentamentos e de pequenos produtores que podem fortalecer o setor produtivo com outras culturas a exemplo de raízes, hortaliças, fruticultura e criação de pequenos animais, somente para dar alguns exemplos”.
A exemplo do que acontece em Capela, as feiras que escoam os produtos (resultado da diversificação do uso da terra das usinas) ganham ainda mais destaque. “Mas, ainda há necessidade da implantação de novas e modernas feiras que são fundamentais na comercialização e apoio ao pequeno produtor rural, favorecendo os dois lados: produtor e consumidor”, finaliza.




