Em um relatório de 170 páginas da Polícia Federal divulgado na noite desta quarta-feira (20), a investigação expõe com detalhes inéditos a dinâmica interna do bolsonarismo, revelando tensões familiares, estratégias políticas e a influência de figuras como o pastor Silas Malafaia.
O documento, obtido a partir de mensagens extraídas do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro, traz à tona diálogos agressivos, particularmente do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra o pai.
O trecho mais sensível do material ilustra a relação conturbada entre pai e filho. Irritado com elogios feitos por Bolsonaro ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em entrevista ao site Poder360 em 15 de julho, Eduardo, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro, dirigiu-se ao ex-presidente com xingamentos:
“VTNC, seu ingrato do caralho.” Ele reclamou do que interpretou como um enfraquecimento de sua própria posição: “Me fudendo aqui! VC ainda te ajuda a se fuder aí!”, escreveu, pressionando o pai para que interviesse em seu favor.
Eduardo demonstrou claro ciúme político e desconfiança em relação a Tarcísio, alertando o ex-presidente sobre as ambições do governador para 2026 e criticando sua aproximação com o Supremo Tribunal Federal (STF).
“Tarcísio nunca te ajudou em nada no STF. Sempre esteve de braço cruzado vendo você se foder e se aquecendo para 2026”, disparou o deputado. Em outro momento, ao saber que o pai estava com Tarcísio, Eduardo enviou um recado ameaçador: “Avise-o. Se quiser acessar a Casa Branca ele não conseguirá. Só eu e Paulo Figueiredo temos acesso”.
O relatório também detalha a estratégia bolsonarista de articulação com os Estados Unidos. Eduardo alertou o pai que o apoio norte-americano cessaria se uma “anistia light” fosse aprovada no Brasil.
“Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar”, disse.
Ele pressionava por respostas rápidas a publicações do ex-presidente Donald Trump, temendo que o aliado “virasse as costas” para o Brasil.
Curiosamente, em uma mensagem de 10 de julho, um dia após o anúncio de tarifas por Trump, Eduardo garantiu ao pai que ele não precisava se preocupar com a possibilidade de prisão. No entanto, menos de um mês depois, em 4 de agosto, Bolsonaro foi submetido à prisão domiciliar por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Aliados do ex-presidente classificaram a divulgação do relatório como um “vazamento político” orquestrado pelo ministro Alexandre de Moraes e pela PF para “desgastar a direita” às vésperas das manifestações de 7 de Setembro e do julgamento da trama golpista, marcado para setembro.
Eles admitem o desconforto inicial com a exposição das brigas familiares, mas minimizam o impacto jurídico do conteúdo, enquadrando-o como um “espetáculo” para os detratores.
A defesa de Bolsonaro nega qualquer irregularidade e contesta a legalidade das investigações.
*Com Agências
