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Memória da rapadura e outras iguarias

Ao longe percebi uma pessoa comum entre outros transeuntes, e bati o olhar nas memórias que o rosto daquela pessoa me fez acordar.

Por trás do olhar também comum, vi uma imagem de mulher, sua mãe; resgatei na lembrança os brincos de ouro sagrado comprados no Juazeiro, era romeira.

Ecos de cantoria, paixão por um padrinho de batina, e a reconfiguração do teto coberto de palha da casa de taipa onde ela morava sozinha, estampou o vazio de móveis da sala,  e eu lembrei que olhava para aquela casa enquanto corria na rua.

Enquanto brincava, sabia que ali no recanto estavam as panelas de barro, os potes e quartinhas, mas também as panelinhas. Eram estas preciosas que eu comprava! Fazia o cozinhado no quintal de casa com aquele instrumento de tecnologia afetiva, nascido do amasso das mãos daquela velhinha.

Eu era tão conectada com a beleza que emanava dela. Lembro o vestido domingueiro que vestia para as missas especiais, e as broncas que nos dava quando as cantigas de roda atrapalhavam seu sono naquele castelo encantado que aos poucos se despedia.

Romeira que é boa romeira sabe o dia da própria morte, ela garantia. Eu morria de medo de saber o dia da minha.

Sua passagem foi lenta, assistida pela rua inteira, pois que anunciou o dia. Se o padrinho lhe avisou de fato, esqueceu de falar da demora que teria. O filho, as netas, a vizinhança nas calçadas e ela acamada, em gemidos roucos que fui impedida de ouvir.

Quando desacreditaram, acenderam seus cigarros, pegaram as xícaras de café, e deram para contar histórias de romeiros ela morreu. Foi meio inesperado o desfecho, afinal!

Acabaram as panelas de barro e suas formas para cada tipo de alimento a ser cozido; tudo virou fumaça de lembrança, ganhou a força do tempo e se foi.

Logo o herdeiro vendeu o casebre, e no lugar da fábrica de cozinhados cresceu uma alvenaria comum, com cara de caixa para alguém morar dentro.

Posso ver o brinco comprado no Juazeiro balançando, seu sorriso apreciador de rapaduras enfeitando o rosto caboclo enrugado, cheio de amor pelas netas, rumando ao encontro dos anjos católicos avantajados, com asas menores do que deveriam ter e bochechas de meninos nordestinos, espalhando benditos no ar.

Como por encanto pisco os olhos e a pessoa continua em posição comum, levando seu destino em um território transformado. Sem ao menos imaginar o quanto me fez enxergar em um átimo, sobre as muitas vidas e histórias que cada comunidade representa, esconde ou com carinho guarda.

Somos todos comuns, somos comunidades de viventes. Mas apenas alguns sabem disso.

Com o barulho da chuva no telhado embrulho meu passado, cada passo dado, em grossa coberta de retalhos nascida dos corações retalhados pelo que é comum viver. Não tem rapadura para todos os paladares, mas a fé constrói o rosário de benditos e as bocas se engolfam de sorrisos, muitas vezes sem nem mesmo sentir o gosto do benefício prometido, mas somente por saber que o sagrado existe já vale a romaria!

 

 

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