Medidas protecionistas em 2011: o teste de 2012

A origem mais investigada novamente é a China, cujas exportações estão envolvidas em cinco das 16 novas investigações, além da revisão

Sergio Goldbaum e André Michelin-Valor Econômico

Em 2011, o número de  investigações antidumping abertas no Brasil pelo Departamento de Defesa  Comercial reduziu-se, em comparação a 2010. Entretanto, isso não  significa arrefecimento da tendência protecionista. A utilização de  instrumentos de defesa comercial intensificou-se antes mesmo da crise de  2008 e a perspectiva para 2012 é de aumento das tensões protecionistas,  no Brasil e no mundo.

Em 2011, a Secretaria de Comércio Exterior  (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior  (Mdic) abriu 16 novas investigações antidumping, além de quatro  investigações de práticas elisivas de circunvenção e três processos de  subsídios. No total, foram 24 investigações abertas em 2011.

A  origem mais investigada novamente é a China, cujas exportações estão  envolvidas em cinco das 16 novas investigações, além da revisão. Índia,  Indonésia, Vietnã, Coreia do Sul e Tailândia estão envolvidos em duas  investigações, cada país. Completam a lista Austrália, Bélgica, EUA,  México, Paraguai, Rússia, Turquia e Uruguai. As investigações de 2011  envolveram 12 produtos diferentes, de químicos e petroquímicos a  têxteis. Boa parte desses produtos são insumos, e o efeito da proteção  comercial em insumos sobre a competitividade das cadeias produtivas é  controverso.

Taxa de câmbio e não a crise é o principal motor da aplicação de direitos antidumping no Brasil

O  número de investigações de 2011 é bem inferior ao observado em 2010,  quando a Secex abriu 40 investigações, que envolveram também 12  produtos. A redução do número de abertura de investigações antidumping,  entretanto, não significa o abrandamento da política protecionista no  país. Em primeiro lugar, deve-se considerar o grande número de  investigações encerradas em 2011. Foram 32 investigações encerradas,  sendo 16 com aplicação de medida protecionista. Com isso, o número de  direitos antidumping aplicados pelo Brasil passou de 80 pela primeira  vez, desde que o instrumento passou a ser utilizado no país, no final  dos anos 80.

É importante observar que a crise de 2008 não  resultou no aumento de medidas antidumping aplicadas pelo país. Ao  contrário: esse número vinha oscilando entre 40 e 50 desde o início dos  anos 2000, começou a aumentar antes mesmo da crise, no início de 2007,  estabilizou-se em torno de 70 nos meses posteriores à crise, e só  recentemente voltou a aumentar. Assim, reforça-se a hipótese de que o  principal fator que influencia a aplicação de direitos antidumping no  Brasil não é a crise, mas a taxa de câmbio.

Em segundo lugar,  chama a atenção o estoque de investigações ainda em andamento,  aguardando conclusão. São 36 investigações, envolvendo 13 produtos;  alguns já com determinação preliminar de cobrança do direito antidumping  em vigor. Em terceiro lugar, e mais importante, destacam-se as demais  medidas protecionistas adotadas pelo Brasil em 2010.

A evolução  das medidas protecionistas no mundo, das tradicionais (antidumping,  salvaguardas e medidas compensatórias) às mais disfarçadas (“murky  protectionism”), como barreiras não tarifárias, requisitos de conteúdo  local, licitações públicas, etc, é monitorado pelo Global Trade Alert  (GTA), num esforço coordenado pelo Centre for Economic Policy Research  (CEPR).

O 10º Relatório do GTA, publicado no fim de 2011, destaca  que as tensões protecionistas ao redor do mundo aumentaram  significativamente no terceiro trimestre de 2011 e atribui isso à  deterioração das condições macroeconômicas globais; como resultado, os  países estariam adotando postura mais defensiva em suas políticas  comerciais. Simon J. Evenett, o autor do relatório, aponta que as  medidas adotadas atingiram o nível dos piores períodos de 2009, no auge  da crise, e que os principais países do comércio mundial ampliaram o  escopo de medidas protecionistas. E conclui: “O sistema mundial de  comércio pode estar enfrentando seu maior teste no próximo ano”, isto é,  em 2012.

O relatório atual classifica o Brasil como o nono país  que mais infligiu dano comercial a outros países, medido pelo número de  medidas discriminatórias implementadas (49 medidas), desde 2009. Nesse  critério, as economias mais agressivamente protecionistas são, na ordem,  a União Europeia (242), a Rússia (112) e a Argentina (111).

Além  disso, o relatório também citou o Plano Brasil Maior como uma das  principais medidas protecionistas adotadas no mundo no terceiro  trimestre de 2011, destacando especificamente a instituição de margem de  preferência em licitações governamentais, a aceleração do processo de  investigações antidumping e a desoneração da folha de pagamentos para  empresas que empregam grande volume de mão de obra.

Por outro  lado, ainda segundo o relatório, o Brasil foi alvo de 203 medidas  estrangeiras que “quase certamente” discriminam contra os interesses do  país. Os países que mais adotaram essas medidas contra o Brasil foram,  na ordem, Argentina e Rússia. Exemplo argentino é a adoção de preços de  referência na importação de produtos têxteis brasileiros, em dezembro de  2011; no caso da Rússia, a introdução de quotas tarifárias sobre as  importações de certos produtos alimentares, medida publicada em junho de  2011.

As novas medidas protecionistas anunciadas pela Argentina  no início deste ano, que obrigam as empresas importadoras a apresentar a  “Declaração Juramentada Antecipada de Importação”, parecem confirmar  que 2012 será mesmo um teste difícil para o sistema mundial de comércio.

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