Marcelo Henrique: A espetacularização que cativa

Marcelo Henrique

São tempos difíceis esses nossos. Ainda que o nosso referencial seja o esforço pela materialização do progresso e justiça sociais, ficamos atônitos diante dos fatos que ainda fazem parte do nosso cotidiano. E é ampla a gama de efeitos (reações) que eles provocam nos distintos indivíduos que tomam conhecimento de sua ocorrência, sobretudo aqueles que desejam a paz e um mundo de oportunidades para todos.

Recordo experiente professor da Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, logo nas primeiras cadeiras do curso, a explanar sobre o alcance dos fatos, na forma de notícias, nos meios de comunicação.

Dizia ele que a “boa notícia” não vende jornais nem alcança ruidosas audiências. Poucos são os que por isso se interessam e as editorias e direções dos veículos acabam deixando de lado tanto as pautas quanto as matérias produzidas, que tratem de iniciativas voltadas ao Bem. Notícia que “vende”, completou o docente, “é a que provoca espanto, lágrimas, estupefação, indignação, contrariedades”.

Isto ficou marcado em mim, na minha trajetória profissional e de vida. Alguns conceitos e vivências de sala de aula, seja qual for a área e o nível educativo, são referências para a vida toda, bem sabemos. Tive algumas experiências e oportunidades na área da comunicação social, em veículos impressos e, também, no rádio, e ainda exerço o jornalismo, como editor e articulista.

A conexão entre fatos e opiniões é, portanto, marcante na imprensa em geral e recebe, destacada importância. Mas não devemos ficar, apenas, envoltos na “atmosfera” das muitas notícias ruins que são estampadas nos veículos de mídia, sobretudo a eletrônica, mais acessível em função do isolamento social nesta época de pandemia.

Quem sabe devamos ser garimpeiros de notícias melhores, ainda que elas não estejam tanto em evidência em sites, blogs ou nas redes sociais. É preciso oxigenar a mente também com informações positivas, adoçar o olhar com esperança e ilustrar nosso psiquismo com bons exemplos. É impossível que só exista o que noticiar de forma negativa ou pesarosa.

Lembro, outrossim, de um grande mestre da faculdade de Direito que, certa feita, em um colóquio sobre crimes contra a Administração Pública, ponderou: – Meus jovens, a maioria das pessoas é boa. A minoria é que delinque!

Não podemos imaginar que a sociedade seja formada, apenas, por pessoas de má índole, os aproveitadores de ocasião, os que fiquem à espreita para o furto, o roubo, a apropriação indébita, a corrupção. Espero que vocês, futuros operadores jurídicos possam contribuir para o aperfeiçoamento do tecido social e que sejam, como eu, fomentadores das boas iniciativas.

Prossigo, assim, com trinta e três anos de jornalismo e vinte e sete de atuação jurídica, acreditando no ser humano, nas potencialidades individuais que, somadas, possam convergir para a mudança necessária de costumes, leis e da própria sociedade.

E, mesmo que o meu ofício seja, também, compulsar as publicações jornalísticas e jurídicas, para atuar profissionalmente, procuro entender o que está “além” da notícia. E, como cidadão, procuro atuar para evitar que a espetacularização seja a única tônica dos meios midiáticos, já que, em muitos casos, a ética jornalística nos impede de divulgar fotos de crimes, de corpos mutilados, de closes de acidentes automobilísticos ou de outros fatos envolvendo mortes. E, no tocante às publicações nas redes sociais, é preciso combater, também, as ideologias que suscitam a violência, os preconceitos e o desrespeito aos direitos fundamentais, individuais ou coletivos. E, sempre que necessário, cada um de nós deve denunciar às autoridades, órgãos de proteção e administradores de redes sociais e plataformas de mídia eletrônica quaisquer abusos.

É preciso, pois, manter distância da espetacularização que cativa todos aqueles que ainda se comprazem com a dor alheia. Neste caso, a higiene mental e a proteção contra eventuais abusos são um caminho importante e decisivo, também, para o aperfeiçoamento do nosso tecido social.

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