Malvinas: pilar do colonialismo tardio

Trinta anos depois, o mundo deu muitas voltas, mas não removeu esse último bastião do colonialismo. Numa Europa em crise, outro governo inglês, conservador e impopular, remonta o cenário bélico

Tereza Cruvinel – Correio Braziliense

Merryl Streep é uma  atriz completa e fascinante. Merece o Oscar para o qual está indicada.  Sua atuação primorosa como Margaret Thatcher é que salva A dama de ferro da indecisão entre ser um filme intimista sobre glória, declínio e  velhice, ou a cinebiografia de uma das maiores figuras políticas do  século 20. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, reclamou em  entrevista da inoportunidade do filme, que, de fato, traz desconfortos  para seu governo. Por exemplo, ao recordar que foi tentando superar a  impopularidade que Thatcher partiu para a Guerra da Malvinas contra a  Argentina em 1982. Numa passagem, relatando as operações navais, o  ministro da Defesa aponta no mapa o deslocamento do navio argentino  General Belgrano rumo às ilhas. “Afunde-o”, diz Thatcher glacial. Um  Exocet fez o serviço, matando 323 argentinos.

Trinta anos depois, o  mundo deu muitas voltas, mas não removeu esse último bastião do  colonialismo. Numa Europa em crise, outro governo inglês, conservador e  impopular, remonta o cenário bélico. A Argentina levou o assunto ao  Conselho de Segurança da ONU e vem mobilizando apoios na América Latina e  na comunidade internacional. A presidente Cristina Kirchner, reeleita  com 53.04% dos votos e com a popularidade nas nuvens, não precisa de  estratagemas, mas retomou, com seu vigor peculiar, uma causa cara aos  argentinos.

A ofensiva inglesa, que somou às ações militares uma  estapafúrdia declaração de Cameron, chamando a Argentina de  colonialista, vem conseguindo a proeza de abrandar a crispação existente  entre a presidente, a mídia, setores da classe média e a oposição  partidária. Ontem, em Ushuaia, capital da Terra do Fogo, parlamentares  de diferentes partidos que integram as comissões de relações exteriores  das duas casas do Parlamento subscreveram documento ratificando a  postulação argentina à soberania sobre as Malvinas.

Um grupo de 17  intelectuais argentinos, num movimento timidamente discrepante,  anunciou um documento pregando a abertura de “instancias de diálogo real  con los británicos y en especial con los malvinenses”. Na mídia, e em  especial no Clarin, ecoam pregações de diálogo com a Inglaterra e com os  moradores das ilhas.

Nada indica que Cristina esteja buscando a  guerra, como fizeram os generais da ditadura em busca de luz no fim do  túnel. Mas o diálogo bilateral já não existe há muito tempo, e todos  sabem disso. Resta agora a mediação da ONU e as ações multilaterais.  Quanto aos malvinenses, como diz Filmus, hoje são ingleses  transplantados, não ilhéus originais.

Aqui no Brasil tem-se  criticado mais o “tom” usado pela Argentina do que a ostentação militar  inglesa. Critica-se a posição adotada pelo Brasil (e demais membros do  Mercosul) de fechar os portos a navios com bandeira das Malvinas. Mas  isso também não é novo, nem coisa de governo do PT. Na Guerra de 1982,  sendo presidente o general Figueiredo, o Brasil não só fechou os portos  como negou pouso, até para abastecimento, a aviões ingleses rumo às  Malvinas.

Por mais de uma razão, outra não poderia ser a posição  do Brasil. Primeiro, pela aliança estratégica firmada com a Argentina  sobre a qual erigiu-se o Mercosul e, mais tarde, toda a política de  integração continental, preliminar para o futuro de nossa região no  mundo multipolar que está surgindo.

Depois, porque a questão das  Malvinas é um caso tardio de descolonização e assim já foi tratado pela  ONU em Resolução de 1965. Uma ex-colônia, solidária na descolonização da  África, não pode fechar os olhos ao que acontece aqui ao lado. O  domínio inglês sobre as ilhas é comparável, para nós, a uma continuada  presença de Portugal (ou de outra nação colonizadora) no arquipélago de  Fernando de Noronha. Algo intolerável.

A palavra está com a ONU,  mas a crise das Malvinas ainda vai exigir mais do Brasil este ano.  Agora, porém, o tema está suplantado, momentaneamente, pela dor de uma  tragédia — o acidente de trem de quarta-feira em Buenos Aires, com 49  mortos e mais de 600 feridos.

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