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Maceió também é a minha sereia nestes 200

Temos acompanhado nas últimas semanas um investimento maciço do poder municipal para celebrar com cobertura de ponta os 200 anos de Maceió, que culminou na noite de sábado, 05.

Diante de tantas situações semelhantes, nos parece até natural. Vivemos um tempo midiático. Tempo de propagandas e invasões festivas, por todos os canais.

Mas nem todos sintonizaram com as festivas alusões ao aniversário de nossa dama secular, e provavelmente, possuem suas razões. Neste escrito, revelo que acompanho ambas as circunstâncias, e já quebrei os grilhões do bem e do mal faz tempo. Compreendo que todos possuem liberdade de expressão, e quando se trata de coisa pública, este nível ganha sublimidade participativa.

Portanto, os que criticam e os que elogiam exercem o mesmo nível de direito. O ato de falar deve ser visto com legitimidade.

De minha parte, endosso também o coro daqueles que lamentam a morte da juventude negra nas bocas de grota em nossa Maceió “profunda” ou profundamente relegada ao descaso das exclusões seculares não enfrentadas. Sinto a solidão dos pacientes que vagueiam em busca de saúde pelos postos da capital e a melancolia das mães que sonham uma educação de qualidade que despeje qualquer réstia de esperança nas sucessivas histórias de imobilidade social que as gerações herdam. Eu sinto como Maceió luta para sobreviver à margem dos lagos poluídos e orlas fétidas da periferia.

Mas vibro com aqueles que usam a arte para liberar resistência e esperanças, no grito do atabaque, no gingado afro, na poética saudosa de uma boemia esquecida nas ruas de Jaraguá. Nossos artistas trazem a inspiração do melhor fazer, e esparramaram encanto em seus corpos e vozes, suando para Maceió e recebendo a carícia da brisa, que visitava os restos da comunidade de pescadores que morou por lá.

Maceió tem dores. Maceió tem amores. Suas contradições políticas e sociais não merecem o poder de embaçar nossa pertença às histórias com vitória. Há hora para chorar e momento para celebrar, equilibrando as energias dos espíritos guerreiros de índios e negros que moram em nós.

Em Maceió nasci e no dia seguinte migrei para um rincão da zona canavieira alagoana, onde a infância transcorreu. Contudo, ao retornar, colhendo amores e encontros, conheci o desencanto que silencia, oprime e persegue o pensante. Casa de muitas lutas. Mas foi do lado de fora de mim, na beira do mar mais azul que um dezembro contempla, que aprendi a curar a revolta, transformando a própria vida em balanço de ondas que lambem, abraçam, limpam a alma da gente. Maceió também é a minha sereia.

Reforçar o prazer de ser maceioense é positivo, traz sentido de pertencimento. A festa deste sábado, 05 de dezembro, reuniu cantores, dançarinos, guerreiros, expectadores, religiosos e ateus, no mesmo pátio. Foi encantada. E beber este prazer não nos impede de continuar lutando por aquela cidade mais justa que desejamos.

Que as senhoras destas terras e dessas águas nos ajudem a não parar o batuque.

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