De tempos em tempos reaparecem, no noticiário, as figuras de FHC e Lula, frequentemente apresentados como os polos opostos da política brasileira. E de fato, para qualquer brasileiro com menos de 30 anos ambos são importantes referências políticas do país, afinal governaram durante quatro mandatos desde 1994, sendo que o petista teve, ainda, presença decisiva nas eleições de sua sucessora, Dilma.
Mas até que ponto Lula e FHC representam polos realmente opostos do espectro político nacional?
Como pensar que PT e PSDB lideram qualquer coisa que seja se em uma Câmara com 513 deputados ambos os partidos não somam sequer 130 parlamentares? Menos do que bancadas temáticas como as da bala, bíblia e boi (agronegócio).
Se um dia Lula e FHC lideraram de fato polos opostos de interesses, esta lógica parece ter se espatifado com a fragmentação política escancarada com as eleições de 2014.
Fragmentação em todos os sentidos, que mina possibilidades de lideranças. Então vejamos: FHC é contra a redução da maioridade penal, mas o PSDB vota majoritariamente a favor; o tucano instituiu o Fator Previdenciário em seu governo mas seu partido quer acabar com ele. Com Lula, a mesma coisa: terminada a eleição ajuda a articular um nome do mercado financeiro para assumir o Ministério da Fazenda apenas para na sequência criticar uma política econômica que ele próprio sabia inevitável. Ao mesmo tempo mantém um teatro de aproximações e afastamentos de Dilma em um jogo quase indecifrável de conveniências.
A verdade é que quando se pede “alguém” para liderar o país para fora do seu atoleiro, os dois veteranos generais da política brasileira parecem, embora que por motivos diversos, sem tropa. Ou sem energia, talvez.
Será um sinal de que é hora de uma renovação radical da política? Algo que supere a dicotomia petista-tucana, forças, afinal, que somam tantas divergências quanto convergências (era no que insistia o ex-governador Eduardo Campos, morto em 2014 durante a campanha eleitoral).
Para quem quiser se aprofundar nessa linha de raciocínio recomendo o ótimo livro “18 Dias – quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush” (Ed.Objetiva, 289 páginas), do pesquisador da FGV Matias Spektor. Para resumir: a obra mostra como FHC se empenhou pessoalmente em 2002, pouco antes de deixar a presidência, para que Lula e o PT ganhassem a confiança do sistema político e financeiro norte-americano, ou seja, Casa Branca & Wall Street. Trabalho de convencimento feito nos bastidores e que envolveu figuras de proa do PT e do PSDB à época, como FHC, Lula, José Dirceu, Antônio Palocci, mas também Armínio Fraga, Pedro Malan e todo um conjunto de profissionais do corpo diplomático.
FHC e os tucanos não agiram assim por benevolência. Ao final de oito anos de mandato, havia, em 2002, escreve Spektor, o risco real de o Brasil quebrar por conta do desequilíbrio de suas contas. Se isto viesse a acontecer, FHC poria a perder seu principal legado ao país e naquele momento de extrema impopularidade, único: a estabilidade da moeda. Já a Lula, que apenas alguns meses antes havia assinado a Carta ao Povo Brasileiro comprometendo-se a honrar contratos da dívida (em uma sinalização clara ao mercado financeiro), interessava receber a casa em pé, para que um eventual colapso econômico não comprometesse de saída seu governo.
O livro de Spektor é uma ótima leitura para se entender um pouco mais do jogo PT X PSDB. No final o leitor poderá se perguntar até que ponto a essência dos projetos econômicos de ambos é tão distinta assim. E diante do atual cenário fragmentado se a dita polarização Lula X FHC não teria virado mais um teatro de fumaças do que qualquer outra coisa.
