O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma reformulação na estratégia de sua campanha à reeleição, priorizando uma narrativa centrada na soberania nacional em detrimento do confronto direto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo apuração do jornal O Globo junto a integrantes do governo e aliados próximos, a avaliação interna é que, embora o enfrentamento ao “tarifaço” norte-americano tenha impulsionado a popularidade presidencial em momentos anteriores, manter um discurso fortemente crítico ao líder estrangeiro pode limitar o crescimento de Lula fora de sua base tradicional de esquerda.
O objetivo agora é atrair o eleitorado de centro, considerado decisivo para o pleito, apresentando o petista como uma liderança experiente e capaz de garantir estabilidade em um cenário global marcado por conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
Nos bastidores, a orientação é “modular o discurso”, evitando tanto o embate aberto quanto gestos de proximidade excessiva com Washington, como aparições públicas ao lado de Trump.
O núcleo político do governo teme que ataques pessoais ao presidente norte-americano possam estimular uma interferência externa no processo eleitoral brasileiro, possivelmente na forma de um apoio explícito de Trump à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao manter uma relação institucional estável, o Planalto espera reduzir esses riscos e garantir algum grau de neutralidade da Casa Branca, mesmo diante do ceticismo de setores do PT que acreditam que grupos privados e plataformas digitais ligadas aos EUA possam tentar influenciar o ambiente político local de qualquer forma.
A mudança de tom marca um contraste com o passado recente, quando Lula classificou medidas econômicas de Trump como uma “afronta” e chegou a afirmar que, se o americano agisse no Brasil como agiu no episódio da invasão do Capitólio, estaria arriscado a ser preso por ferir a democracia.
Apesar de pesquisas de opinião terem mostrado uma redução na desaprovação do governo após essas falas mais duras, a leitura atual é que o foco em pautas nacionais e na liderança diplomática é mais eficaz para ampliar o alcance eleitoral.
A cautela aumentou após o encontro entre os dois mandatários na Malásia, em outubro de 2025, e episódios como a revogação do visto de um funcionário do Departamento de Estado americano que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão, interpretados como sinais de que é possível manter um diálogo técnico sem rupturas ideológicas.
Ainda assim, aliados admitem que essa nova diretriz não é definitiva e pode ser abandonada caso o governo dos Estados Unidos adote medidas consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros nos próximos meses.
Um ponto de atenção é a possível classificação de facções criminosas do Brasil como organizações terroristas por parte de Washington, o que poderia forçar uma nova mudança de postura de Lula.
Por enquanto, a campanha deve seguir uma linha menos ideológica, apostando na imagem de um presidente que prioriza a defesa dos interesses nacionais e a gestão de crises internacionais para conquistar o eleitor menos polarizado.
