Certo dia, quando ainda era aluna de Ciências Sociais na Universidade Federal de Alagoas, e participava de eventos acadêmicos com frequência, fui surpreendida por um antropólogo vindo de Brasília, que com suas pernas longas cruzadas lembrava um personagem de filme inglês, dizendo de modo assertivo que a colonização nos tornara inimigos da natureza.
De acordo com sua expressão, para que os sistema colonial desse certo em nossas plagas, fomos separados das matas e das águas e passamos a agredi-las, avançando sobre a natureza com sanha de dominação. Seria ela ou seríamos nós.
Décadas depois, voltei a pensar naquelas palavras, na construção de um pensamento que falava de violência como modo de afirmação. Violência naturalizada entre pessoas simples. Trabalhadores que perderam o elo com as fontes do próprio sustento no modus operandi da dominação colonial, aplicados nos sítios onde moravam.
A floresta e as águas são autônomas, e o pensamento gerador de dependências existenciais combateu todo tipo de autonomia, para lograr o domínio de territórios férteis e pessoas antes livres.
Lembrando o leão marinho que deslizou pelas águas e areias da costa alagoana com graça e beleza genuínas, no mês de março deste 2026, sendo depois abatido, espancado, cortado, e largado na beira do mar, não canso de refletir sobre o propósito de quem lhe tirou a vida de maneira brutal. Razões para isso ter acontecido, seguem não explicadas. Mas a violência explícita desfila diante da sociedade.
A primeira lição trazida pela colonização continua ativa, movimentando a tração humana entre nós, seja na urbanidade, nas matas ou nas águas.
Como superar este estado arcaico? Como perceber que viver sem violências também é uma possibilidade?
Aos que só pensam em punir, também serve o alerta.
Seguimos com déficits educacionais severos, ainda que existam maquiagens para os números, os dados do IBGE confrontam as mentiras divulgadas. A sociedade alagoana carece de educação e sensibilização humana, ambiental, cultural.
Mas seguimos com os poderes instituídos em mãos incultas, que escolhem manter esta sociedade em atraso histórico.
Nenhuma criatura está segura entre instintos e cultura de violência. Nem Leôncio conseguiu escapar.






