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Lei do abuso de autoridade blinda ricos mas salva pobres do escárnio nos programas policiais

Programas policiais fizeram fama e fabricaram gente para a política com o lema “bandido bom bandido morto” tripudiando de presos pobres e pretos na TV, ao lado de policiais segurando seus “troféus”.

Foram décadas de exposição ao ridículo, ao escárnio, à demonstração de que aqueles “elementos” deveriam ser submetidos a uma lei do cão, misturada ao sadismo em nome da “ordem”.

Nos últimos anos, as atrocidades cometidas por alguns integrantes das classes média e alta não poderiam mais ser ignoradas. O silêncio ou a tímida cobertura a seus crimes era insustentável.

Existe uma hierarquia. Pobres e negros são diferentes de brancos e bem sucedidos, expostos às câmeras. Repórteres abordam os primeiros com toda a carga histórica, passada de geração a geração, que associa cor e bolso vazio a crimes, vícios, predisposições, perversidades.

Quando ricos e brancos aparecem como criminosos na TV, há quase um pedido de desculpas na hora de abordá-lo naquela hora fatídica, em busca de sua defesa. Porque errar é humano, todos têm suas bobagens, “ninguém é perfeito”.

Neste contexto, nasceu a lei do abuso de autoridade.

Por pressão (justa) não somente de juristas para que a exposição de presos em operações policiais não significasse um julgamento antecipado da sociedade- julgamento das ruas motivado pelo cansaço da impunidade, da proteção das instituições (criando os criminosos de “estimação”).

Mas também da atuação de setores incomodados com seus iguais sendo exibidos misturados à gente de cor, sem eira nem beira. Gente de sobrenome dividindo o noticiário com Carlos de Tal- como os jornais do final do século 19 nomeavam aqueles pobres diabos capturados como criminosos, cumprindo sua sina, seu destino: a cadeia ou o cemitério.

Antes da lei de abuso de autoridade, defensores públicos entravam na Justiça, nos estados, contra os excessos direcionados a presos pobres, durante operações para prendê-los.

Há delegado que diz que a nova lei prejudica o trabalho policial. É verdade. Também é verdade que os abusos fizeram os usos. Chegamos ao ponto de termos criminosos favoritos no país- e poupados nas coberturas da mídia.

Se existem criminosos favoritos, é porque a lei não vale para todos. É melhor não ter nenhum preso com nome e rosto expostos na TV. Se nossas instituições precisam repetir que a “lei tem de ser cumprida”, é porque, no mundo cão, salva-se quem pode. Quem não pode…

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