Algo incomodava o escritor Lêdo Ivo naquele 16 de novembro de 2009. Após assistir uma apresentação do “bruxo” Hermeto Pascoal e do músico Chau do Pife, Lêdo sentou-se no sofá do hotel Ritz Lagoa da Anta, em Cruz das Almas. Ajeitou-se, franziu a boca. Sentei ao lado dele, após entrevista do companheiro Warner Oliveira. Perguntei sobre o que esperava da literatura no mundo.
Riu-se.
“Os vampiros dominam a literatura”.
Não era uma crítica nem escárnio. Era Lêdo Ivo. Claro, falava dos livros-febre no mundo (alguns ganhando o cinema).
Não lamentava. Literatura era assim, acompanhava esse tal mundo e seu mudismo (ou modismos).
Lêdo Ivo veste uma roupa diferente a partir deste domingo, 23 de dezembro. Rindo-se dos vampiros, o alagoano ria-se também de uma satisfação que nem o conterrâneo Graciliano Ramos conseguiu, em vida: o reconhecimento da terra natal.
“Hoje o governador Teotonio me mandou um beijo. E só mandou beijo para duas pessoas: o Aécio [Neves] e eu”.
Nova risada. Escárnio?
Não porque quando ganhou o ostracismo após escrever Ninho de Cobras, o “beijo” do governador era o fim do esquecimento que as instituições impuseram ao escritor, como fizeram com Graciliano.
Ali, Lêdo sorria. Poderia ser um deboche. Dizia que Ninho de Cobras era uma obra fictícia, não falava de Alagoas. E voltava a rir.
Ajeitando-se para levantar do sofá e falar com o bruxo e o Chau, ria, como ria dos vampiros e do beijo do governador.





