Com 85 anos de idade e 70 de carreira, completados no ano passado, Laura Cardoso confessa: ainda fica nervosa diante de um novo personagem e chega a adormecer com seu texto nas mãos. Juca de Oliveira, 77 de idade e 53 de profissão, garante: até hoje encara qualquer papel como um “Hamlet”, de William Shakespeare. Embora experiência eles tenham de sobra, algo chama ainda mais a atenção durante a conversa da dupla com a Revista da TV: a sabedoria no que concerne à arte da atuação. Amigos há quase 60 anos e com várias parcerias profissionais no currículo, Juca e Laura celebram mais um encontro, a partir de amanhã, em “Flor do Caribe”, nova trama das 18h.
Os dois chegam à novela de Walther Negrão vindos de sucessos. Ele teve participação fundamental em “Avenida Brasil”, na qual viveu Santiago, pai de Carminha (Adriana Esteves), a vilã mais comentada de 2012. Já a atriz saboreou a popularidade com a amarga Doroteia de “Gabriela”, dona de bordões como “Jesus Maria José”. E ela afirma, empolgada: é nesses momentos que a profissão ainda a surpreende.
— O sucesso me entusiasmou. Porque se eu disser que estou segura, é mentira. Dá sempre um medo de acertar ou não. Fazer Doroteia foi esplêndido, um presente do (autor) Walcyr Carrasco — afirma, com animação de iniciante.
Para Juca, mais do que interpretar um personagem excepcional, a atitude do ator diante do trabalho faz toda a diferença em sua performance:
— Você tem que fazer qualquer coisa como se fosse a mais importante de sua vida, onde for. Então faz no limite. Às vezes, por acaso, o personagem se transforma em algo popular. Geralmente os vilões têm grande impacto, caso do Santiago.
Mas o paulista de São Roque, consagrado galã nos anos 1970 com o papel-título na novela “Nino, o italianinho” (1969), não é do tipo que se vangloria dos louros do passado — “Não gosto de falar de passado nem de futuro. Vivo o presente”, diz. Por isso, conta, o convite para viver Samuel em “Flor do Caribe” já fez com que desapegasse totalmente do personagem anterior.
— Quando li, logo me apaixonei. É absolutamente o oposto do que fiz em “Avenida Brasil”. Samuel é uma pessoa solidária, generosa, afetiva. Só desanimei quando soube que trabalharia com a Laura. Mas o Negrão insistiu e acabei topando — brinca, arrancando risos da colega.
Embora já tenha dado vida a incontáveis nordestinas, como a Isaura de “Mulheres de areia” (1993) ou a Donana, de “Pão pão, beijo beijo” (1983), Laura está imersa no universo de Veridiana, neta de cangaceiros na trama da novela das seis.
— Você começa no escuro. Afinal, quantas mulheres dessa região eu já fiz? Mas nunca vivi a Veridiana. Vou pensar, estudar, me dedicar e saber o que o autor quer de mim. Uma hora eu descubro. Não há como levar com pé nas costas e não se pode colocar a essência de um personagem no outro. Então quem diz que tira de letra é bobo, não sabe nada — frisa.
Juca interrompe a amiga para descrever uma sensação que costuma acometer os atores, geralmente no meio do processo de preparação. Um sentimento que pode até levar à loucura ou, no caso do artista, a descobertas valiosas.
— A melhor sensação que pode existir é quando você vira para a sua mulher e fala: “Querida, estou fazendo uma merda. Estou péssimo, errei, a personagem não é assim”. Isso desencadeia forças insuspeitáveis. Quando você fica completamente perdido é que encontra o novo. É assim que o artista acha, no canto da alma, um personagem que não sabia que existia. Eu sou uma pessoa generosa, solidária. Mas achei o psicopata dentro de mim — explica Juca, sobre o vilão de “Avenida Brasil”.
Enquanto fala, Juca começa a observar insistentemente — mas discretamente — um homem sentado no bar do terraço do hotel, onde a entrevista está sendo realizada. Com as mãos apoiadas no queixo, o tal sujeito está com os olhos fechados, como se estivesse num estado de meditação. Juca pontua:
— Saber observar é uma característica que precisamos ter. O ator desenvolve tão magistralmente que capta movimentos com um simples olhar. Este homem está cansado, triste? Por que está tão concentrado?
Durante a conversa, logo se percebe que a mente do ator não para de fervilhar. Ele próprio sabe disso. Diz que é herança da infância, da época em que sua mãe, Inês, não podia ver o filho à toa que já o mandava fazer alguma coisa:
— Era muito pobre, então estava sempre ajudando na casa. Fiquei assim. Se não estou gravando, estou escrevendo ou cuidando de algo na minha fazenda — relembra ele, responsável por êxitos teatrais como “Caixa 2” e “Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa”.
Concordando com cabeça, Laura acrescenta que o ator não pode ser alienado. Precisa se movimentar, ler, estar por dentro de tudo o que acontece na TV, no cinema, no teatro, no circo. Deve ver o que os colegas estão fazendo. Lição que ela aprendeu com o diretor Antunes Filho.
— Bom, ruim. Você vê tudo. As referências são importantíssimas — enfatiza.
Juca completa:
— Até para dizer: “Graças a Deus nunca vou fazer isso” (risos). Não cair nas armadilhas.
Ao revelar que a atuação é seu único dom — “nem cozinhar eu sei, acredita?” — Laura assente: a profissão exige dedicação e renúncia.
— É a vida inteira aprendendo e se preparando — diz.
Por esse motivo, ela revela, fica irritadíssima quando se depara com gente sem comprometimento. Aquelas pessoas que procuram a televisão apenas por exibicionismo. Não “atores de verdade”, mas “gente que só quer aparecer”, acredita Laura:
— Gosto de trabalhar com gente nova porque sempre vem um dado novo, uma ilusão. Eu dou a velhice e ganho a juventude. Mas não tenho paciência para quem não quer aprender. Já vi ator que não sabia ler, queria dar palpite no cabelo, no vestido. De 100 que chegam, você tira três que querem, de fato, se dedicar.
Entre os exemplos positivos, Laura destaca, está Reynaldo Gianecchini. Um homem “lindo de morrer”, mas preocupado em fazer para acontecer:
— É um ator que respeito.
Juca argumenta que o tal glamour que envolve a profissão atrai celebridades. Outro dia, relembra, leu uma entrevista que o deixou horrorizado, na qual um famoso dizia detestar não ser reconhecido na rua em viagens fora do país.
Juca vai mais longe na crítica a quem só pensa na fama:
— As pessoas que gostam de aparecer o tempo todo se apegam ao vulgar, e não ao fundamental. Mas, enquanto ficam horas escolhendo em que revista sair, se perdem. São pessoas tão acostumadas a serem vistas e incensadas que levemente se afastam de suas personalidades reais e não conseguem mais ficar sozinhas. Olha que tragédia alguém que não consegue conviver consigo mesmo? É psicologicamente grave, um problema sério de relacionamento.
Na opinião de Laura, é por isso que o teatro acaba se tornando tão fundamental para o amadurecimento de um ator.
— Na TV, o processo é rápido. A pessoa chega, aparece e vira estrelinha. No teatro, é preciso passar meses ensaiando e, depois, em cartaz — compara.
Juca classifica o teatro como “a pátria do ator”. É nos palcos que o artista tem a possibilidade de experimentar, permitir que o personagem aflore. E é também o lugar onde o ator consegue produzir um trabalho de profundidade. Sem se preocupar, necessariamente, com a memorização do texto.
— Improvisar na TV é modificar a ordem de frases. No teatro, você não improvisa no diz que respeito à palavra, você estuda aquilo o mais profundamente para que se torne um ato reflexo. Assim, introjeta os signos dentro de si e se sente à vontade para improvisar nas emoções. Porque é impossível representar pensando na palavra — defende ele.
Além disso, Juca ressalta, a experiência nos palcos renova o repertório o que, consequentemente, enriquece o trabalho na televisão. Para ele, o artista precisa reunir “o demônio, o homossexual e o psicopata” numa alma multifacetada.
E de nada adianta o talento se não estiver diante de um diretor cuidoso, destaca Laura, revelando estar encantada com o esmero de Jayme Monjardim, diretor de núcleo de “Flor do Caribe”.
— Ele quer o resultado perfeito. E eu não me canso de repetir cenas, sou incansável. Quem só faz TV acredita que a primeira vez é a melhor. E o pessoal do teatro sabe que com a repetição é que se descobrem as novidades — explica.
Juca, que já passou pela experiência de estar por trás das câmeras em “Irmãos Corsos”, na TV Tupi, em 1966, considera a experiência uma “loucura fantástica”. Até porque se define como um “maria-vai-com-as outras” nesta área.
— Se estou dirigindo um ator e ele sugere outro caminho, topo na hora. Você tem que saber o que quer, e eu não sei o que quero. Por favor, nos deem dicas! — diverte-se.
O bom humor do ator diante da profissão se reflete na sua atitude diante da vida. Até quando fala da velhice, Juca garante não se intimidar com a chegada da idade. Muito pelo contrário. Ele afirma que seu “prazo de validade” já está “vencido”. Agora, diz estar no lucro.
— Meu limite era 72, depois 74. Estou com 77 e aquela sensação de não ter garantia. Outro dia eu estava viajando e o avião teve uma turbulência atípica. A moça do meu lado se apavorou e eu pensei: “Já fiz algumas coisinhas, só lamento não poder encenar minha peça, terminar duas outras que estou escrevendo”, e assim por diante, mas não não me apavorei.
Laura vai na contramão. Fala que não quer morrer de jeito algum. Mas sabe que o passar dos anos traz “segurança sobre a vida, sobre as coisas e sobre as pessoas”:
— Eu gosto muito da vida. E a cada dia me sinto uma pessoa mais generosa e compreensiva.
A atriz reitera que seu objetivo é nunca parar de trabalhar. Que ainda se deixa seduzir por um papel, pela vontade de criar, de representar. E avisa: nunca recusou personagem.
—Acho um desrespeito com quem vem te convidar. E se aceitou, vista a camisa. Eu quero fazer tudo! — conta
Segundo Juca, o tamanho do personagem é o que menos deve importar num convite.
— É uma burrice ator ficar chateado com o prestígio alheio, porque é daí que vem o prestígio dele. Nós fazemos arte coletiva. Somos expulsos da Igreja, nos encontramos em encruzilhadas com batedores de carteira, somos prostitutos. Ainda existe esse preconceito conosco, graças a Deus. Somos marginais porque criamos novos modelos de cultura. As pessoas querem que a sociedade pare, nós queremos que ela avance — desabafa o ator.
Diante dessa visão de que a função da arte é a modificação e a criação de novos modelos culturais, Juca não esconde a decepção com os rumos do vale-cultura, do governo federal. Voltado para os trabalhadores e válido a partir do segundo semestre, o vale, de R$ 50, tem como finalidade o consumo cultural, podendo ser utilizado em cinemas, teatros e na aquisição de livros, CDs e DVDs e também no pagamento de serviços de TV por assinatura.
— A atitude da nossa ministra (da Cultura, Marta Suplicy) é chocante. A função do Estado é viabilizar a cultura, e eles fazem exatamente o contrário. Isso é o Brasil! Como você pode comparar um concerto, uma ópera, a uma TV por assinatura? É óbvio que vai preferir a segunda opção. Porque desde Umberto Eco sabemos que existe a redundância e a informação. A obra de arte abre picadas, produz a elevação cultural. A TV é redundante. Você assiste com prazer porque há uma quantidade de informação pequena. A função social da arte é a modificação — reflete Juca, afirmando que, para ele, não é obrigação da TV ter função social. —Ela visa apenas ao entretenimento.
Em uma análise crítica, Laura acha que, quando surgiu no Brasil, há 63 anos, a TV prezava a educação e informação. Mas a busca pela audiência teria empobrecido o veículo.
— É bom para quem que as pessoas pensem? — indaga.
Para não “sucumbir ao sistema”, Juca prefere estar fora do burburinho, ao lado de sua mulher. Há 41 anos ele vive em sua fazenda colonial em Itapira, no interior paulista. É ali que Juca se renova.
— O habitat do homem é a floresta. E, quando você sai do ambiente natural, acaba se tornando uma aberração. Não me acostumo muito na cidade. Minha mulher cuida do gado, e eu dos passarinhos e das maritacas — comenta Juca, que também está fazendo dois cursos de inglês on-line.
Já Laura conta que seu maior prazer é viajar, seja de ônibus, trem, navio ou avião. Ainda mais se tiver a companhia do bisneto Fernando, de 12 anos, seu “último amor”.
— Sou abençoada porque tenho uma família linda, duas filhas, duas netas e um bisneto. Faço tudo o que o Fernando quer —conta.
As informações são do O Globo








