O Globo
Médicos do Hospital de Clínicas Alameda, no Fonseca, em Niterói, reuniram a família do estudante de administração Jorge Luiz Carvalho, de 24 anos, na tarde desta quinta-feira para informar que o jovem teve morte cerebral, de acordo com um amigo da vítima. Jorge Luiz foi baleado no pescoço após ser atacado por dois homens na Rua Justino Bulhões, em Icaraí, na madrugada de domingo. O ataque ao estudante aconteceu na porta de casa, quando ele estava dentro de seu carro, em frente a um prédio no Ingá, onde mora com um amigo.
No município, que enfrenta uma onda de violência, registrou na última terça-feira a ação de dois bandidos armados que assaltaram um motorista na Estrada Velha de Itaipu, próximo ao Largo da Batalha. Em fuga, os bandidos atiraram para o alto, causando pânico em quem passava pela área.
A forte suspeita é de que criminosos do Rio tenham migrado para Niterói, sobretudo depois da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O Morro do Preventório, por exemplo, que recebe uma das maiores obras do PAC em Niterói, teria sido ocupado por traficantes vindos da Mangueira, segundo investigações. Apesar dessa hipótese, na Região Oceânica, segundo o delegado da 81ª DP, as investigações ainda não apontam a ação de uma massa de bandidos do Rio. Quase todos os suspeitos, diz ele, têm anotações criminais em São Gonçalo e Maricá, ou mesmo em Niterói. Ele não descarta que um mesmo grupo esteja agindo em diferentes pontos da cidade.
Delegado afirma que carros roubados na Região Oceânica são recuperados em São Gonçalo
A maioria dos veículos roubados na Região Oceânica de Niterói é recuperada em São Gonçalo. É o que aponta um levantamento da 81ª DP (Itaipu). De acordo com o delegado Gabriel Ferrando de Almeida, em janeiro e fevereiro deste ano foram roubados 35 carros em bairros da região. Cerca de 40%, 14 deles, foram recuperados: nove em São Gonçalo e cinco em bairros de Niterói limítrofes com o município vizinho.
Para o delegado, esses dados corroboram uma característica flutuante da criminalidade na região. Pelas investigações na delegacia, a maior parte de crimes como o roubo de veículos, a transeuntes, a estabelecimentos comerciais e a residências é cometida por bandidos vindos de São Gonçalo e Maricá, que se aproveitam das muitas rotas entre a Região Oceânica e esses municípios para fugirem.
No caso dos veículos recuperados, a maioria foi achada próximo a comunidades como o Jóquei e o Complexo da Coruja, em São Gonçalo. Já o principal acusado de roubar veículos na região morava em Maricá: segundo Gabriel de Almeida, Maikon Teles Ribeiro, o vulgo MK, foi preso em janeiro. Desde então, oito vítimas já o reconheceram.
_ Por conta disso, estamos reforçando o patrulhamento nos acessos à região. O intuito é interceptar esses criminosos antes que cheguem aos bairros. Também vamos apoiar a Polícia Militar e fazer rondas à noite. Pelo que levantamos, o horário de maior incidência de crimes é a partir das 18h – afirmou o delegado. – Nos últimos meses, já avançamos muito nas investigações. E observamos uma queda nas ocorrências em março em relação a janeiro e fevereiro.
Maior patrulhamento e operação em Niterói
Na tentativa de conter essa onda de violência, nesta quinta-feira chegam às ruas os cem recrutas enviados pela Polícia Militar para reforçar o efetivo do 12º BPM (Niterói). Eles vão atuar, além da Região Oceânica, em áreas como Icaraí, Ingá, São Francisco e Centro. E vão cobrir também cabines que, como mostrou O GLOBO, estavam vazias, sem policiamento, nesta quarta-feira. Segundo o comandante do batalhão, coronel Wolney Dias, alguns dos recrutas já tinham chegado na quarta, e o restante fica à disposição do batalhão a partir desta quinta-feira. Desde as 10h, segundo ele, mais 21 viaturas também atuariam no patrulhamento de Niterói.
E pelo menos dez pessoas foram presas numa operação do 12º BPM (Niterói) que acontece na comunidade Vila Ipiranga, no bairro do Fonseca, em Niterói. Na ação uma pessoa foi baleada e levada para o Hospital Azevedo Lima. Foram apreendidas duas metralhadoras, uma pistola calibre 9mm, um fuzil calibre 7.62 e material para endolação. O caso está sendo registrado na 77ª DP (Icaraí).
A violência em Niterói, além de deixar mortos e feridos, vem alterando a rotina da cidade. Enquanto as promessas de reforço na segurança não ganham as ruas, em alguns bairros o comércio já está fechando mais cedo, vias importantes viraram rotas proibidas e moradores têm evitado sair de casa, sobretudo à noite. A última ação dos criminosos — um roubo de carro seguido de tiros na terça-feira à noite — causou pânico em motoristas que trafegavam pela Estrada Velha de Itaipu, próximo ao Largo da Batalha, um dos principais acessos à Região Oceânica. Na tarde de quarta-feira, uma equipe do GLOBO cruzou a cidade entre o Centro e Itaipu e percorreu 20km, passando por bairros como Icaraí e São Francisco: no trajeto, encontrou cabines de policiamento vazias e apenas duas patrulhas da Polícia Militar circulando — uma na Avenida Marquês de Paraná, no Centro; e a outra na Estrada Francisco da Cruz Nunes, em Itaipu.
Na Estrada Velha de Itaipu, por exemplo, não havia policiamento algum por volta das 16h. Na noite de terça-feira, dois homens armados tinham levado os pertences de um motorista no acesso do Largo da Batalha à via. Na fuga, os bandidos dispararam para o alto, e quem estava próximo voltou na contramão, temendo um arrastão. Cenas como esta têm assustado a população, que, nos últimos dias, assistiu ainda ao assalto que deixou ferido o estudante Jorge Luiz Carvalho, no Ingá, e ao assassinato do médico Carlos de Carvalho Sobrinho, em Icaraí.








