Repórter Nordeste

Jornal pergunta: quem é Renan Calheiros?

No primeiro grande escândalo de corrupção do Brasil pós-redemocratização, o apoio de Renan poderia ter evitado o processo de impeachment contra Collor, na avaliação do fundador do PMDB e ex-senador gaúcho Pedro. “Na hora do impeachment, o Renan estava separado do Collor. Renan teria feito diferente, faltou alguém como ele ao lado de Collor. Se o Renan fosse aliado, Collor teria ficado até o final”, descreve.

Mas não foi o que aconteceu. O então presidente deu o primeiro passo em falso com o aliado poderoso ao se negar a apoiar Renan para o governo de Alagoas. Collor se colocou ao lado de um parente de sua esposa, Rosane.

Pedro Simon, que protagonizou diversos embates com Renan, recorda quando o colega de partido ganhou destaque nacional. “Ele começou com o grupo que lançou a candidatura do Collor à Presidência. Muitos, inclusive eu, achávamos que seria algo inexpressivo, sem nenhum futuro, e na verdade, eles elegeram o Collor”, relembra.

Após abandonar o governo, em 1990, Renan ainda se tornaria peça importante contra o presidente, ao afirmar, em depoimento à CPI do esquema PC Farias, que Collor tinha conhecimento das ações de seu tesoureiro de campanha.

Hoje, 25 anos depois, ameaçada por 17 pedidos de impeachment em tramitação na Câmara e com uma base rebelde no Congresso, a presidente Dilma Rousseff (PT) parece ter aprendido com os erros de Collor e evita a todo custo romper com Renan.

Passado. Uma característica fundamental para quem se propõe a permanecer por tanto tempo no poder é a capacidade de deixar para trás antigas desavenças. Ex-senador pelo PT, Eduardo Suplicy afirma que Renan é perito em “perdoar os inimigos”. “No período recente, quando Collor voltou ao Senado, eles tiveram uma relação de respeito”, relata.

O próprio Suplicy conta ter mantido com Calheiros uma relação tranquila, mesmo depois de ter votado pela cassação do peemedebista em 2007. Na ocasião, Renan presidia o Senado e foi envolvido em acusações de que um lobista da construtora Mendes Júnior pagava a pensão da jornalista Mônica Veloso, com quem Calheiros teve uma filha fora do casamento.

Calheiros abandonou a presidência da Casa, mas conseguiu manter seu mandato. Apesar dos danos a sua imagem, em 2013 ele foi novamente eleito presidente do senado.

Político alagoano é a síntese do fisiologismo do PMDB

O cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, avalia que Renan sintetiza as características do PMDB. “Renan encarna uma estratégia partidária, sua posição tem sido a posição do PMDB, de se tornar um partido grande, capilarizado e relevante no Parlamento, de tal modo que qualquer um que ganhe precise governar com ele. Existe um ditado em Brasília que diz que é difícil governar com o PMDB e impossível governar sem ele”.

Leal credita à força do PMDB e à lógica eleitoral parlamentar a capacidade de Renan “renascer das cinzas” e ocupar lugar de destaque na política nacional. “Cargos para o Parlamento têm uma dinâmica eleitoral própria, diferente daquela para cargos nos Executivos. Mesmo que você tenha uma imagem negativa junto a eleitores, isso pode não impedir que você seja eleito senador. É sintomático que Renan tenha dificuldades em se eleger governador”, explica.

A avaliação do especialista converge com a do ex-senador Pedro Simon (PMDB). “É um estilo de política no Congresso brasileiro, é a política do ‘é dando que se recebe’, do ‘toma lá, dá cá’”, descreve o gaúcho, que, no entanto, credita o “estilo” não a uma decisão interna do partido, mas à forma como governos do PSDB e do PT se relacionaram com o PMDB.

Hoje, a pecha de partido fisiologista é admitida pelos próprios peemedebistas, mas mesmo assim não encerra a questão sobre o “fenômeno Renan Calheiros”. Como aponta sua história, com ou sem o apoio do partido, o político foi capaz de articular seu próprio caminho, hora em atrito, hora alinhado ao governo.

Agenda Brasil foi preço de senador para ‘sustentar’ Dilma

Sem traquejo político, com uma base extremamente rebelde e insatisfeita e diante de uma oposição faminta para tomar o poder, não restou à presidente Dilma Rousseff (PT) outro caminho se não costurar um acordo para manter o apoio de Renan Calheiros.

Além de um hábil articulador em um posto-chave – a presidência do Congresso –, Dilma também evitou ganhar um adversário perigoso. O rito para firmar a aliança com Renan passou pela Agenda Brasil, série de propostas levantadas pelo peemedebista que provocam arrepios em alas mais tradicionais dos petistas. Norteado por um neoliberalismo explícito, o projeto aos poucos é incorporado pelo governo federal. Dilma afirmou ter “grande interesse” nas propostas do presidente do Senado.

O alinhamento fez surgir a teoria de que o acordo passava pela recondução de Rodrigo Janot ao cargo de Procurador Geral da República. Janot, que investiga a participação de Renan no esquema da Lava Jato, foi sabatinado e aprovado pelo Senado.

FELIPE CASTANHEIRA- O Tempo

 

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