Há neste tempo a corrida pela elaboração contínua de cortinas de fumaça. Fumaças coloridas, azuis ou vermelhas, todas iguais no sentido de confundir, espalhar ilusão para que nada além dos festejos e palavreados ocupe espaço na mente dos votantes.
Um mundo cercado de vassalos bem vestidos e baixos-cleros perfumados envolvendo os palcos com ares de celebridades.
A realidade social e cultural da nossa gente subsidia o teatro. Enquanto o poder convence a subjetividade de uns e outros de que é exatamente assim que a roda deste tempo gira. Necessidades forjadas. Feitos ditos, malfeitos camuflados.
Há um que ri, outro que gargalha, tantos que falam…o silêncio dos alquebrados é coberto pelas cores que o poder espalha.
O murmúrio dos oprimidos sequer encontra veículo nos trilhos da história.
A modernização constrói a festa em tempo real, rápidos guizos tilintando na frente dos olhos, em volta dos ouvidos. O convencimento pede recursos cada vez mais aperfeiçoados e desde que a realidade pode ser virtual, desvirtua-se o compromisso público sob aplausos e bençãos. O povo vai às urnas outra vez.
Poucos conseguem manter qualquer certeza, a não ser esta: iremos votar!
Pouca esperança, nenhuma confiança, um hábito insano talvez: iremos eleger!
Quase derrocando na tristeza de deixar as dores às novas gerações, nos preparamos para fingir que acreditamos e colocamos à venda os dedos desiludidos que teclarão números marcados, participando virtualmente da democracia, mesmo tossindo com o excesso de fumaça.
Eles, os protagonistas. Nós, os votantes. Cenas dos demais capítulos adiante.





