De quem é essa mulher que quer viver?
Quem consegue respeitar essa vontade?
Despossua, não é sua.
Toda poesia de agora foi carregada nas costas de alguém feito tora.
Mas toda criação de modelos para o ser mulher
Carrega a imperfeita sanha de modelar alguém.
Artífices do equilíbrio!
O gostar e o não gostar de uma mulher tem conteúdo político.
Por essa razão não aponto a mão para quem recebe flores e choca com carinho
Uma taça de vinho!
Nosso tema predileto não pode ser o sangue que nos derramam
Nem o grito do vazio
Pleno de luto e negrume.
Na vida combatemos a morte!
No riso desdenhamos as investidas cruéis contra os nosso sonhos.
Não somos cabeças para nenhum rebanho.
Em nossas cabeças cabem folhas e galhos, nossos braços podem ser agasalhos
Não confisque a representação mátria
Para a sua bandeira!
Toda estrada de mulher tem sangue na poeira
Mas as asas que se arrastam ficam mais pesadas.
Minha escrita é trampolim cotidiano.
Todos os dias preciso vencer ou ser vencida
Para merecer o sono.
Fora do meu corpo o coração não pulsa.
Meus órgãos, minhas dores, tudo se mistura em um vaso vermelho de violências
Onde resistência fermenta ideias novas e cozinha sabores.
Solte a minha mão.
Quero apenas respirar enquanto conto histórias
Elenco memórias.
Fitas métricas e barreiras ideológicas, não podem impedir mulheres
Que não se importam com as narrativas predatórias
Porque estão ocupadas em viver.
Hoje também é nosso dia.
Também hoje podemos contrariar expectativas
Desde que as nossas respirem em ambientes seguros
Na privacidade preventiva de quem confia em si mesma.
Quero ser feliz e te desejo o mesmo, cada mulher tem seu dia
Cada dia de mulher tem seu desespero intenso
E seu gozo profundo.





