Paulo Delgado- Correio Braziliense
Em 1º de julho, a Croácia se tornou o mais novo membro da União Europeia, que agora conta com 28 países. Na capital, Zagreb, multidões cantavam animadamente o hino da nação para, logo em seguida, ao som da Ode à alegria, de Beethoven, comemorar também o belo e mundialmente famoso trecho da 9ª sinfonia, adotado como hino oficial da União Europeia. Por acaso, o atual presidente do país, Ivo Josipovic, é músico e apareceu na televisão tocando o hino ao piano.
Apesar de o arranjo encomendado pelos políticos europeus ao maestro Herbert von Karajan no início dos anos 1970 suprimir o canto dos versos de Friedrich Schiller — Oh, amigos, mudemos de tom! Entoemos algo mais prazeroso! E mais alegre. Abracem-se, milhões! Enviem este beijo para todo o mundo —, que eram a própria razão de ser da versão original de Beethoven, fazendo assim do hino oficial basicamente uma música para a Ode à alegria sem a “ode à alegria”, nas ruas de Zagreb a versão que embalava a satisfação e os sonhos dos croatas vinha na forma pela qual as pessoas vêm sendo encantadas desde o primeiro quarto do século 19: com os desejos de paz expressos em cada um dos românticos versos do jovem poeta alemão.
A versão oficial do hino vem sem o canto em alemão para que não exista primazia de uma língua em uma organização com pelo menos 24 idiomas oficiais. Todavia, é inegável que foi escolhido justamente pela letra. Pois é a letra do poema que foge da retórica invariavelmente compartilhada pelos hinos nacionais: disputa, orgulho narcisístico, belicismo, dominação, vingança, bairrismo, redenção pela intolerância…. a pátria acima da humanidade. De qualquer forma, a tendência, desde meados do século 20, é de declínio dos hinos violentos, numa Europa traumatizada com guerras e governos autocráticos de recente memória.
Ainda que a maior parte dos países europeus tenha já depurado seus hinos, para que as letras se adequassem ao crescente clima de promoção da paz, depois de despropositados morticínios e de inimizades atrozes, a verdade é que uma parte da Europa continua cantando ou a guerra ou a infalibilidade do país, ao celebrar a honra à pátria.
Tirando os hinos de países como Dinamarca, Finlândia, República Tcheca, Lituânia, Luxemburgo, Eslovênia e Suécia, que, historicamente ou mais recentemente, chegaram com consistência a letras em que o amor ao país não inclui o ódio ao estrangeiro, parte razoável dos países europeus expressa o orgulho nacional pela forma da comparação agressiva, direta provocação, crítica depreciativa ou reação ao inimigo estrangeiro — claro ou abstrato.
Ainda que alguns sejam emocionadas preces de misericórdia a Deus — como Letônia, Malta e Hungria —, outros são clamores urgentes para derramar o sangue inimigo. O mais famoso entre os hinos nacionais, certamente, o francês traz, em sua parte mais animada, forte conclamação às armas: aos batalhões que devem ser formados para marchar e derramar o sangue impuro do inimigo. É mais visceral que o hino do nosso Rio Grande do Sul, estado-nação precursor da liberdade, que almeja que suas façanhas sirvam de modelo a toda a Terra. Esse ímpeto verborrágico francês fez com que, na Revolução Russa, a Marselhesa superasse em prestígio a própria Internacional.
Durante a Primavera dos Povos, como passou a ser chamada essa série de revoluções majoritariamente nacionalistas, tocava-se muito a Marselhesa. Seus acordes continuaram a soar mesmo nos períodos em que era proscrita na França. Até hoje, é um canto internacional, mas a letra, de valor histórico inegável, de tempos em tempos é vista como despropositada, pelo menos desde Victor Hugo, que queria ver definitivamente fora do contexto mundial versos como “às armas, cidadãos!”.
Conta o humor europeu que talvez a França só tenha aceitado um hino alemão para a UE porque, logo no início, Schiller concede que a “Alegria” é filha do Eliseu, o mítico paraíso da antiguidade grega, que por coincidência é também o nome do palácio presidencial da França.
A verdade é que, com versos como “você é a nossa única querida”, cantado a todo pulmão pelo povo croata, os hinos nacionais, se levados a sério, são um pouco difíceis de conciliar com a ideia de construção supranacional, como deve ser a UE. O poema oculto do hino é uma das agridoces idiossincrasias dessa construção institucional tão ousada e rejuvenescedora, mas que não consegue andar sem pisar em ovos. Ao que tudo indica, Schiller morreu se lamentando, arrependido de sua composição de juventude, pois aprendeu ao longo da vida que seria impossível um mundo assim. Tomara que não seja também essa a transição por que passa a percepção atual do continente europeu, embalado pela ode de uma sinfonia que o representa, mas de letra calada.