Greve no IML: 100 corpos são enterrados sem perícia

Pelo menos 100 corpos foram enterrados, sem perícia, nas últimas duas semanas de greve do Instituto Médico Legal Estácio de Lima (IML), de Maceió. Médicos peritos e os legistas querem aumento salarial e melhores condições de trabalho. O Governo ofereceu duas salas em um hospital para a realização dos exames em pessoas vivas- o corpo de delito e a conjunção carnal. O Ministério Público Estadual ameaça entrar na Justiça para obrigar o Governo a buscar uma solução mais rápida para o problema.

No IML de Maceió, os corpos são liberados sem exame cadavérico. Pelos cálculos de funcionários do instituto, pelo menos 100 foram enterrados nestas condições. As famílias assinam documento e autorizam a exumação, caso ela seja necessária.

A maior preocupação é que Alagoas, líder nacional em assassinatos, não elucide os crimes porque alguns destes corpos são de vítimas de homicídios. Sem os laudos cadavéricos, nem o Instituto de Criminalística nem a Polícia Civil conseguem chegar a conclusões simples, como, por exemplo, quem matou uma pessoa. Sem o trabalho destes órgãos, o Ministério Público Estadual não pode oferecer denúncias à Justiça.

“O que acontece hoje é que vivemos um estado de guerra. Os cadáveres são enterrados sem exame e isso como regra. Isso não é admissível, nunca vi isso em lugar nenhum. Porque exame necroscópico é a prova material do crime. É como o exame do local do crime, que pode retratar o histórico, a dinâmica do crime”, disse a promotora Karla Padilha. “Só a Perícia Oficial é a detentora da obrigação legal de fazer estes exames”, disse a promotora.

Há 80 anos, o IML de Maceió funciona, de improviso. Sem equipamentos, facas de serra e conchas de feijão ajudam nas autópsias; as geladeiras funcionam em condições precárias; os corpos ficam expostos no quintal do instituto por causa do mau cheiro.

Para resolver a situação, o Governo retomou os exames em pessoas vivas- como corpo de delito e conjunção carnal. Estes exames representam 70% da demanda do IML da capital. Os atendimentos são feitos em duas salas do Hospital Sanatório.

“Procuramos novo local e não pretendemos ficar aqui muito tempo, no máximo em 3 meses”, disse o diretor do instituto, Luiz Mansur.

Um novo IML está em construção. As obras, segundo o Governo, devem durar um ano.

O estado passou 15 dias para disponibilizar uma sala consultório para a realização de corpo de delito, medida que podia ter sido sanada na primeira semana de paralisação. O prazo de 45 dias dado pelo diretor é muito extenso e isso vai prejudicar ainda mais a população”, disse o presidente do Sindicato dos Médicos, Welington Galvão.

“Os corpos estão sendo enterrados sem laudo e as famílias não têm acesso à certidão de óbito e consequentemente não conseguem resolver questões judiciais, pensão… Outro problema é o fato de não haver determinação judicial para que estes corpos sejam enterrados, o que pode prejudicar no momento em que precisar fazer as exumações. O que existe é uma determinação do secretário de Defesa Social apenas”, afirmou Galvão.

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