Repórter Nordeste

Grande demais para ir para a cadeia

Simon  Johnson ex-economista chefe do FMI, é cofundador de um respeitado blog  de economia, BaselineScenario.com, professor na MIT Sloan, membro sênior  do Instituto Peterson de Economia Internacional, e coautor, com James  Kwak, de “13 Bankers” (13 banqueiros)-Valor Econômico

Um dos princípios fundamentais de um sistema  judicial é o seguinte: não minta para um juiz nem falsifique documentos  apresentados a um tribunal ou você irá para a cadeia. Descumprir um  juramento de dizer a verdade é perjúrio e mentir em documentos oficiais  é, a um só tempo, perjúrio e fraude. São transgressões criminais graves,  a não ser que você esteja no coração do sistema financeiro americano.  Ao contrário, figuras importantíssimas parecem ser bem recompensadas por  seus crimes.

Como argumentou Dennis Kelleher, da Better Markets, o  recente acordo a que chegaram os processos envolvendo as denominadas  “assinaturas robotizadas” – em que cinco grandes bancos “aceitaram”  firmar acordos para pôr fim à responsabilidade legal a que estavam  sujeitos devido a sua prática de retomada fraudulenta de imóveis  financiados – é uma rendição total ao setor financeiro.

Em  primeiro lugar, não fora formulada nenhuma acusação penal grave – o que  significa que ninguém será acusado de crime e ninguém irá para a cadeia.  Em termos de afetar os incentivos que balizam as ações de executivos,  isso é a única coisa que importa.

Até mesmo a terminologia usada  para formular a discussão é errônea. Kelleher, um advogado com vasta  experiência de trabalho em firmas de advogacia e no setor público,  define a coisa como ela é: “Assinaturas robotizadas é conduta criminal  em larga escala, sistemática e fraudulenta”. Alternativamente, como  salienta Kelleher, poderíamos chama isso de “mentir, enganar e roubar”.

Em  segundo lugar, as penalidades cíveis nesse acordo – uma forma de multa –  são minúsculas em comparação com o tamanho das companhias envolvidas.  Como disse secamente Shahien Nasiripour, um dos melhores repórteres na  cobertura desse assunto: “Nenhuma das cinco instituições bancárias disse  que espera incorrer em um encargo substancial devido ao acordo”. Em  outras palavras, de uma perspectiva empresarial, as penalidades são uma  ninharia.

Terceiro, essas multas são, de todo modo, pagas pelos  acionistas das companhias, e não por seus executivos ou membros de  conselhos de administração (todos eles cobertos por seguros). Nos raros  casos em que multas foram aplicadas a pessoas físicas, suas seguradoras  cobriram a maior parte da conta ou as penalidades foram relativamente  triviais em comparação com os ganhos monetários resultantes da prática  de seus crimes – ou as duas coisas.

Como se tudo isso não fosse  suficientemente ruim, as notícias indicam que os bancos poderão usar  dinheiro do governo para depreciar o valor das hipotecas, o que equivale  subsidiá-los para que paguem suas próprias irrisórias multas.

O  governo Obama e seus aliados têm se empenhado em propagandear que o  acordo com os bancos – mediante o pagamento de aproximadamente US$ 20  bilhões -, terá um impacto significativo sobre o mercado imobiliário.  Nada, porém, poderia estar mais longe da verdade. Como enfatiza  Kelleher, os EUA têm “mais de 10 milhões de casas “underwater” (quando a  dívida no financiamento excede o próprio valor da casa).” US$ 20  bilhões não fazem diferença alguma nisso: por exemplo, significariam um  milhão de casas com um perdão de US$ 20 mil da dívida em cada caso.

Na  realidade, o acordo firmado pelo governo Obama com as financiadoras de  casas é coerente com sua prática anterior em todas as suas políticas  relacionadas ao setor financeiro, que têm sido péssimas. Mas são também  incompreensíveis. Por que o governo continua a fazer de tudo para  agradar os maiores banqueiros nessas circunstâncias?

Eu  honestamente não acredito que a postura do governo reflita alguma forma  de corrupção – pagamentos feitos a pessoas físicas ou até mesmo em  benefício de campanhas políticas. E, nesse caso, sequer parece refletir o  poder de pressões de grandes agentes financeiros. Esse poder certamente  explica por que as reformas financeiras Dodd-Frank promulgadas em 2010  não foram mais vigorosas e por que há agora tanta oposição à  implementação eficaz dessa legislação – por exemplo, há atualmente uma  grande briga em torno da “regra Volcker”, que limitaria o “proprietary  trading” (operações financeiras com recursos próprios) de megabancos.  Mas as atividades criminais das financeiras habitacionais são uma outra  questão.

De fato, o que está em jogo, nesse acordo envolvendo os  financiamentos habitacionais, são violações fundamentais e sistêmicas do  Estado de Direito: perjúrio e fraude numa escala que abrange toda a  economia. O Departamento de Justiça, sem dúvida, dispõe de todo o poder  de que necessitaria para processar plenamente os responsáveis por esses  crimes. E apesar disso, as mais altas autoridades policiais americanas  abstiveram-se sistematicamente – e, agora, completamente – de cumprir  plenamente seu papel.

A principal motivação para a indulgência do  governo em face dos graves crimes cometidos é, evidentemente, o temor às  consequências da tomada de medidas duras contra banqueiros individuais.  E talvez as autoridades governamentais tenham razão em ter medo, dada a  enorme escala dos bancos em questão em relação à economia. Com efeito,  esses bancos são maiores, agora, do que antes da crise, e – como James  Kwak e eu documentamos pormenorizadamente em nosso livro “13 Bankers” -,  são muito maiores do que 20 anos atrás.

Banqueiros importantes  querem ganhar muito dinheiro. Eles também querem ficar fora das cadeias.  Os líderes políticos podem esbravejar quanto quiserem, mas sem uma  ameaça crível de pobreza e de tempo atrás das grades, os banqueiros não  têm por que cumprir a lei. Para eles, tudo é negócio – e você pode ser o  otário em política pública tão facilmente quanto pode ser o otário em  um contrato de empréstimo individual.

A mensagem para os  executivos do banco hoje é simples: faça seu banco ficar tão grande  quanto possível – e depois continue a fazê-lo crescer. Se você conseguir  tornar-se suficientemente grande, você e seus funcionários não serão  apenas grandes demais para falir – mas também grande demais para serem  levados à cadeia.

O governo Obama acaba de fazer todo mundo de otário – exceto os banqueiros. (Tradução de Sergio Blum)

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