Gentrificação de uma cidade é um processo agressivo, onde pessoas com poder aquisitivo alto ocupam territórios e expulsam moradores.
O município litorâneo de São Miguel dos Milagres, na região norte alagoana, retrata o que faz um processo de gentrificação: fecha acessos às belezas naturais que antes eram parte da vida comum e paulatinamente, apaga as memórias culturais e práticas de vida da comunidade nativa, que vai sendo colocada à margem, enquanto pessoas de classe média alta e ricas, ganham a centralidade da vida no lugar, encarecendo custos, precarizando relações de trabalho e dominando com imposições de privilégios todo o território político/econômico/cultural.
No caso de São Miguel dos Milagres, a indústria do turismo resolveu afastar o nome do santo protetor, para ressaltar o milagre econômico que encareceu cada torrão na beirada daqueles mares. Obviamente, atraindo investidores, que compraram terrenos baratos para superfaturar, e afastar nativos sem poder de compra, do próprio lugar.
O que antes era uma pacata vivenda de pescadores hoje os impede de viver à beira-mar para comportar demandas turísticas.
Documentos oficiais já começam a identificar o município como Milagres, mesmo sem acontecer referendo para substituição do nome.
A memória cultural, expressa na culinária, folguedos, e relações com a própria natureza exuberante, já sofre diferentes sufocamentos.
Se chamam isso de progresso, é porque estão apenas começando a sentir o impacto capitalista bruto e excludente que estes processos de gentrificação impõem.
Das memórias de São Miguel dos Milagres onde passava deliciosas férias a um balneário ocupado por estranhos perseguidores de Milagres, a vida comunitária perdeu espaço, e já começou a subir o morro, onde os poderes não gostam de ir, mas sabem enviar suas mensagens de repressão e violência seletiva.
A brisa do mar é a mesma, mas chega de maneira diferente em cada casa, em cada vida.





