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Gaúcho tenta receber R$ 15 bilhões do Banco do Brasil

Valor Econômico

Percy Anor Monteiro diz que  é bilionário. Há sete anos, o gaúcho humilde de 79 anos, natural de Rio  Grande, uma cidadezinha de 200 mil habitantes no extremo Sul do país,  recorre a diferentes tribunais de Justiça na tentativa de receber do  Banco do Brasil (BB) mais de R$ 15 bilhões.

Percy alega que o  banco bloqueou sua renda, conquistada ao longo dos anos com  investimentos diversificados: venda de pedras preciosas, de títulos da  dívida externa, de patentes de invenções e incursões nos setores de  hotelaria, agropecuária e mineração. O caso já foi parar na Presidência  da República e no Banco Central, em cartas enviadas por Percy e pedidos  de resposta ao BB. O caso vem movimentando times de advogados de  diferentes regiões do país.

A primeira investida foi em Alagoas,  em 2005. Percy conseguiu uma liminar obrigando a instituição financeira a  transferir R$ 84 milhões a uma conta em seu nome. Por pouco, não ficou  com o dinheiro. O banco conseguiu reverter a decisão.

Percy fez  nova tentativa em Goiás, alegando um “bloqueio administrativo” de seu  crédito. Juntou ao processo um suposto extrato com saldo de R$ 4,7  bilhões. Em 2008, esclareceu ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal  que o bloqueio se devia a uma investigação sobre lavagem de dinheiro,  motivada pelo tamanho de sua riqueza. Teve o cuidado de provar que a  quantia constava em sua declaração de Imposto de Renda – o tributo não  foi recolhido, ressalvou, porque o banco teria confiscado o dinheiro.

Frente  à insistência de Percy, a Justiça de Brasília condenou o Banco do  Brasil a apresentar os documentos pleiteados por ele. A instituição  alegou em seu recurso que se tratava de uma tarefa impossível: embora o  correntista fosse verdadeiro, o extrato estaria mais próximo do zero que  da casa do bilhão.

Como um turista do Judiciário, Percy fez nova  parada na Justiça de Porto Alegre, pedindo ao banco, desta vez, uma  indenização por danos morais por bloquear sua fortuna. Não teve sucesso:  faltou-lhe dinheiro para pagar as custas do processo.

Novamente  em Brasília, a juíza da 11ª Vara Cível, Iêda Garcez de Castro Dória,  pediu providências à Receita Federal por estranhar os fatos descritos na  ação. Enquanto a declaração de IR de Percy dava conta de saldos  bilionários, sua renda anual era inferior a R$ 22 mil, segundo dados da  ação.

Percy não se intimidou e recorreu à Justiça paulista. Desta  vez, a inicial veio com o nome de Dercy Amor. No novo processo,  apresentado no fim de 2010, ele diz que tem instrução escolar precária,  está com a saúde frágil e em estado de penúria. Relata que há mais de  dez anos teve uma quantia bilionária depositada em sua conta, mas o  banco, de forma arbitrária, não permite o levantamento. Como o valor  estaria em sua posse há mais de cinco anos, seria beneficiado pelo  usucapião.

Em novembro, o suposto bilionário recorreu à presidente  Dilma Rousseff. Enviou-lhe uma carta pedindo uma consulta “sob sigilo” e  o desbloqueio de sua conta no Banco do Brasil. Alegou desta vez que  “rupturas internas entre investidores” causaram o extravio de centenas  de documentos, impossibilitando demonstrar à instituição bancária “os  fatos legais da origem dos recursos depositados.” A essa altura, segundo  dados mencionados na carta, o valor já teria dobrado: passaria de R$  34,2 bilhões. Procurados pelo Valor, os advogados de Percy não quiseram  comentar o caso.

Recentemente, um episódio semelhante ao de Percy  Anor Monteiro foi além da dor de cabeça causada ao banco e seus  advogados: gerou polêmica até no Conselho Nacional de Justiça (CNJ),  colocando em lados opostos a corregedora, ministra Eliana Calmon, e  entidades da magistratura.

No fim de 2010, Eliana suspendeu uma  decisão da juíza Vera Araújo de Souza, da 5ª Vara Cível de Belém do  Pará, que obrigava o Banco do Brasil a bloquear R$ 2,3 bilhões de sua  receita. O valor era pleiteado por Francisco Nunes Pereira, um cidadão  que vivia de forma modesta na cidade de Tatuí, no interior paulista, e  alegava ser dono do dinheiro. O próximo passo era a transferência do  montante para sua conta corrente. De acordo com ele, o valor estava em  seu nome havia mais de cinco anos, o que caracterizaria usucapião.

A  liminar bloqueando a quantia no Banco do Brasil foi confirmada no  Tribunal de Justiça do Pará (TJ-PA). O banco tentou reverter o caso, mas  como não teve sucesso recorreu ao CNJ pedindo a suspensão da liminar.

A  ministra Eliana Calmon aceitou o pedido do banco e tornou a decisão sem  efeitos. “Ficou muito claro que o Judiciário estava sendo usado para um  golpe”, declarou na época. Apesar de ter evitado o saque do dinheiro, a  decisão rendeu graves acusações de parte da magistratura contra a  ministra. A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) enviou uma  carta aos juízes do país dizendo que a corregedora estaria ameaçando a  independência dos magistrados, e fez uma representação contra Eliana no  Supremo Tribunal Federal (STF) e no CNJ.

O desfecho mostrou, no  entanto, que a corregedora tinha razão. No começo deste ano, a polícia  de São Paulo prendeu Francisco Nunes Pereira – também conhecido como  Chico da Fossa ou Mineirinho – e mais quatro pessoas, apontadas como  integrantes de uma quadrilha especializada em fraudes bancárias. O grupo  foi autuado por falsificação de documentos, fraude processual e  formação de quadrilha.

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