Gabriela estreia com nova linguagem mas não convence

Murilo Melo- A Tarde

Quem esperava ver na mocinha de Juliana Paes uma Gabriela idêntica à Sônia Juliana Paes tenta fugir da sombra da Gabriela de Sônia BragaBraga da versão de 1975, naturalmente, se decepcionou. Pelo que parece, a moça não quer se mostrar um espelho, um robô, uma xerox patética, ou fazer mais do mesmo da atuação de Sônia do passado. O que pode se analisar, desde a estreia na última segunda-feira (18), é uma interpretação diferente, nada de excepcional, mas sem perder a essência do produto, com o toque de cravo e canela que a produção usa e abusa na adaptação do romance de Jorge Amado.

Na tentativa de emplacar um novo horário de novela, Gabriela — folhetim dirigido por Mauro Mendonça Filho e exibido pela Globo após levar ao ar O Astro, ano passado — voltou esteticamente moderna, com edição bem estruturada, cenários e figurinos do que pode ser considerado de melhor. Essa superprodução se deve a motivos visíveis: a clássica briga pela audiência, qualidade em produtos dramatúrgicos na grade de programação e, acima de tudo, a sede insaciável da emissora carioca em arrebatar todos os prêmios possíveis do gênero.

Para tanto, a investida maior não poderia ser em outra pessoa a não ser a própria personagem de Juliana, que na primeira semana, já mostrou um pouco de tudo, literalmente.

Nas cenas em que apareceu, até então, além de olhares voluptuosos, a morena esbanja o corpo sensual com uma mão que não para quieta e remexe o vestido a todo momento. Se viu cenas de nudez com sussurros até chegar ao sexo. Seguindo ou não a linha dos escritos de Jorge Amado, é bom que se saiba que a trama foi anunciada como livre adaptação do autor Walcir Carrasco e não um remake como muitos gritam por aí.

Mas é bom pôr limites em certas coisas. É bem verdade que o elenco é promissor e bastante afiado, ainda mais se for para falar de Laura Cardoso, Antonio Fagundes, Maitê Proença, entre outros. Mas é bem verdade também, que entre tantos achados da trama, alguns ali no meio pecam no exagero. Exemplos disso são Humberto Martins e Marcelo Serrado.

Martins brilha no papel de Nacib. É espontâneo e convence, sim, como um homem apaixonado por uma lolita. Por vezes, ele consegue transmitir ao telespectador uma química intensa com Juliana Paes. O Tonico Bastos, de Serrado, consegue afogar de vez a imagem do afetado Crô de Fina Estampa. Entretanto, se os dois atores parassem nesses elogios seria uma honra. Preferem exagerar no sotaque baiano a ponto de incomodar com tantos “Oxes” e “Oxentes” carregados no texto, aparentemente improvisados.

Leona Cavalli, a Zarolha, se sai bem. A atriz é o destaque no núcleo. Quem assiste percebe que a personagem foi feito para ela.

Já Ivete Sangalo, após o alvoroço todo da mídia por aceitar integrar o elenco da novela, não fez feio para uma principiante, também não foi um marco, apenas foi aceitável. Dá para perceber a dedicação da cantora, o gosto que ela tem por estar ali. Ao decorrer da primeira semana, ela transformou a Maria Machadão e todas as meninas do Bataclã em figuras memoráveis do folhetim. Causa o tom de comédia e malícia, vez em quando, admiráveis.

Vale aplaudir também a trilha sonora. Com novos arranjos direcionados à atração, Hans Donner, responsável pela abertura, traz uma arte adequada à obra de Jorge Amado. Porém, pode ser angustiante para alguns assistir Gabriela. O texto, mesmo com uma nova adaptação, soa como antiquado se comparado aos roteiros dos novos autores.

E, fora isso, em tempo de internet, academia e doutorado — tempo que todo mundo deixa televisão em quinto plano — a propaganda alarmante em cima de “Gabriela” conseguiu o esperado na TV e nas redes sociais. A trama marcou no primeiro capítulo 30 pontos de audiência* e nos capítulos seguintes estacionou nos 27, um recorde para o horário.

Longe dessa propaganda toda, dá para enxergar que a trama não apresenta nada de tão espetacular, tudo ali já foi apresentado em algum momento na dramaturgia. Jorge Amado já foi lido e relido, e a novela acaba sendo morna demais, normal demais, sem atrativos convincentes.

Com esse risco, é bom o cara da poltrona (que não é muito fã, mas está tentando ser), tomar muito cuidado para não acabar dormindo com a TV ligada.

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