Diário de Pernambuco
A maneira como a Igreja Católica está organizada hoje está superada. “É arcaica”, definiu Frei Betto, ontem, em debate na UFPE. Autor do livro Batismo de sangue,transformado em filme, o frade dominicano afirmou que a divisão das dioceses centradas em paróquias obedece a uma lógica medieval. Nessa época, disse, a proximidade era definida apenas geograficamente. Agora, a proximidade tem outra base, que é a da tecnologia. A lógica mudou. “Mas a Igreja não chegou a isso”, criticou. E isso, a seu ver, é um dos grandes desafios para o novo papa,Francisco.
Para o frade, que abriu uma série de debates a serem organizados pelo Centro de Filosofia e Ciências Sociais (CFCF), a Igreja não poderá fugir de outros pontos. Uma delas, a reforma da Cúria Romana. “A Cúria sempre teve um enorme poder de transformar o papa em seu refém, como toda a burocracia estatal”, enfatizou. As outras seriam o diálogo interrelegioso e moral sexual. Frei Betto inclui o papel das mulheres na Igreja, o celibato e os padres casados como pontos importantes a serem discutidos. São temas que, a seu ver, a Igreja não poderá fugir. Afinal, em alguns países, como a Holanda,o número de seminarista escasseiam. Quando o assunto é amoral sexual, o frade ressalta a necessidade de se enfrentar, às claras, os temas como a pedofilia e a união civil entre pessoas do mesmo sexo. E à essa, Frei Betto é favorável. (Jailson da Paz)
Cúria
Quais os grandes desafios do papa? Primeiro, a reforma da Cúria Romana. Já foi uma chega para lá a nomeação da comissão de cardeais para assessorá-lo. Só tem um da Cúria. Ele vai ter que enfrentar. Só não sei em que momento. Como mineiro desconfiado, acho que só vamos verdadeiramente conhecer o que pensa o Bergoglio depois que o Ratzinger morrer. Como ele vai tomar uma medida que o Ratzinger não esteja de acordo ou pelo menos não consinta? E mantenha o silêncio obsequioso para aplicar a si mesmo o que fez ao Boff. Sobretudo porque, além de ser um papa renunciante, é considerado pela ortodoxia, o teólogo número um da Igreja Católica.
Celibato
Embora o papa paulo VI tenha feito grandes avanços, havia um tema aboslutamente proibido de ser tocado no Concilío Vaticano II: a moral sexual. Alguns bispos e cardeis quiseram levantar esse tema que é o grande nó da Igreja. Que é discutir o estatuto da mulher na igreja, a questão obrigatoriedade do celibato, reinserção dos padres casados. Eles são 100 mil no mundo e 5 mil no Brasil. Nem todos querem voltar, mas muitos querem. Isso porque na Igreja primitiva havia duas vocações: a vocação para o sacerdócio e a vocação para o celibato, que era dos monges. Só a partir dos séculos 8 e 9, com os monges se tornando papa, o celibato foi sendo progressivamente sendo imposto.
Ditadura
O papa Francisco sempre foi um homem com muito sensibilidade par ao mundo dos pobres. Foi um bispo, um cardeal argentino que sempre destoou do conjunto porque andava de metrô, de ônibus. Parava nas ruas para falar com mendigos. Gestos muito humanos. Não é o monarca, principalmente na Igreja Argentina. A Igreja Argentina é mais elitista que a brasileira. A gente esquece ou pouco gente sabe que o catolicismo é a religião oficial da Argentina. Todos os bispos e padres recebem salários do governo argentino. Por isso é que, na ditadura a Igreja foi cúmplice. O Bergoblio, não. Não foi cúmplice. Mas a Igreja foi cúmplice e tem que responder.
União homossexual
“Sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Já escrevi sobre isso. Publiquei um artigo – Os gays e a Bíblia – falando do assunto, que pode ser encontrado na internet. Defendo o direito dessas uniões porque a questão é equivocadamente colocada. Discute-se uniões a partir da sexualidade, quando você tem que discutir as uniões a partir da amorosidade. Deus é amor. E a presença de Deus está na intensidade amorosa. Na relação em que você tem em relação ao outro. Aí há a presença de Deus. Não possso negar a presença de Deus. A Igreja já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem seu amor por pessoas do mesmo sexo”