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Fragmentos da reconstrução: desafio aos psicólogos

Alguns de nós, psicólogos, já estamos percebendo que urge organização da Psicologia para superar as situações socioeconômicas e socioculturais que afetam os sujeitos na atualidade. Não obstante, também somos estes sujeitos e também estamos inseridos em um contexto de fragmentação dos laços que nos identificam como categoria de trabalhadores.

Ora, se percebemos que temos um descompasso entre demanda social e postos de trabalho, há algo errado não só na organização da produção, na divisão social do trabalho e da técnica e nos problemas políticos que observamos ao nosso redor, mas na nossa incapacidade de nos enxergarmos enquanto envolvidos nas contradições históricas, geradas pelo capitalismo, que estão na base do conflito entre classes sociais.

Se falamos em uma organização da Psicologia, falamos da necessidade de unificação dos interesses dos profissionais psicólogos para a análise, discussão e luta pelo fim de uma conjuntura árdua seja para os estudantes, para os recém-formados ou formados a algum tempo.

De qual conjuntura árdua estou falando? Uma conjuntura de desemprego em massa e da perda de espaço no mercado de trabalho, não por falta de esforço, mas por um processo dinâmico, com origem na maneira de funcionar do capitalismo nos países subdesenvolvidos e submetidos a influência política e econômica de países centrais do capitalismo mundial.

A partir deste processo dinâmico é que emerge, em seu devido contexto e momento histórico, a ideologia neoliberal como forma de organização política e econômica que reflete no ataque agressivo e contundente as políticas de assistência social, de saúde e da educação (ver Carvalho; Yamamoto, 2002).

Os golpes de estado, o Estado mínimo e a deterioração dos instrumentos de proteção aos trabalhadores mostram o traço especialmente frágil da democracia na América Latina e os requintes autocráticos das burguesias na imposição de sua ordem, em submissão planejada ao imperialismo norte-americano (ver Fernandes, 2015).

Neste contexto segue a agenda de privatizações, sucateamento dos serviços públicos que visam o bem-estar psicossocial e se estabelece o fortalecimento de um privatismo acelerado que exclui a maioria da população de serviços básicos de atendimento e assistência social.

O compromisso social da Psicologia, a partir da realidade discutida, fica sujeito a voluntarismos, assistencialismos e a despolitização paulatina da “questão social”, sendo ela um “efeito colateral” da sociedade e que precisa ser devidamente controlada ou ignorada (ver Yamamoto, 2007).

Mobilizar, organizar e discutir a realidade da profissão é um caminho possível para um novo horizonte político que pode direcionar a ação profissional do psicólogo. Entendendo os processos dinâmicos da nossa realidade histórica que condicionam os nossos meios de sobrevivência e, sobretudo, a eficiência de nossas práticas para evitar o desmonte de nossa capacidade transformadora.

Se nos reconhecermos como classe trabalhadora não só valorizaremos nossa força de trabalho como tende a ficar clara a necessidade de uma posição definida na luta de classes. Não há como ignorar esta luta e que, neste contexto, temos perdido a consciência que fundamenta nossos movimentos para uma profissão de valor político e social no enfrentamento das injustiças.

Se não temos postos de trabalho e temos que lidar com o desemprego ou ficarmos cristalizados a um tipo de atuação (geralmente clínica), isto configura nosso esgotamento e falência diante da burguesia. Ratifica a primazia do indivíduo e o desmonte das conquistas coletivas.

É um momento ímpar para os psicólogos e os desafios são imensos, mas sair do marasmo político, da conformação submissa, da identificação negligente e obsoleta com as classes dominantes é o desafio mais complexo.

No entanto, meus amigos, sempre há trabalho para os trabalhadores que se organizam e entendem a tática política de enfretamento a lógica burguesa.

Trabalho para os trabalhadores e Psicologia para todos pode ser um horizonte próspero.

Saiba mais:

CARVALHO, D. B.; YAMAMOTO, O. H. Psicologia e políticas públicas de saúde: anotações para uma análise da experiência brasileira. Psicologia para a América Latina, 2002.

FERNANDES, F. Notas sobre o fascismo na américa latina. In: ______. Poder e contrapoder na américa latina. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

YAMAMOTO, O. H. Políticas sociais, “terceiro setor” e “compromisso social”: perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia & Sociedade, vol. 9, n. 1, p.30-37, 2007.

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