Repórter Nordeste

Fim do voto de opinião ou da opinião em si?

Ricardo Salles – Estadão

Você já deve ter ouvido algum cientista político  dizer que não há mais espaço para o chamado voto de opinião, que teria  perdido espaço para o voto corporativo e para o voto de liderança, sem  falar nas celebridades e nos cacarecos que a cada eleição são usados  pelos partidos para desempenhar vergonhoso papel de meros puxadores de  votos.

O voto em celebridades e cacarecos já é nosso conhecido.  Sabemos que prejudica não só seus próprios eleitores, como a sociedade,  pois quase sempre os eleitos nessa modalidade cumprem seu único mandato  sendo massa de manobra dos donos dos partidos, velhas raposas de guerra.  Nesse caso, ao contrário do que foi alardeado na última campanha, pior  do que está pode sempre ficar. E tem ficado.

Já o voto corporativo  é o obtido via apoio de determinadas entidades, notadamente sindicatos e  igrejas, que se valem de isenções fiscais e benefícios legais de toda  sorte para despejar recursos quase inesgotáveis em beneficio dos que,  sendo eleitos pelo esquema, por ele trabalharão por todo o seu mandato.

E  voto de liderança, o que será? Nada mais é que mero eufemismo para  designar a moderna versão da velha compra de votos. Explicando melhor:  na sua modalidade mais ortodoxa, o suado dinheirinho dos nossos impostos  é usado em convênios, emendas e repasses para comprar votos de  entidades cujos líderes foram escolhidos a dedo para serem cabos  eleitorais dos seus padrinhos políticos. Gostou? Tem mais.

Na  modalidade mais heterodoxa do voto de liderança, ou seja, dinheiro vivo  em troca de voto, enormes quantias são cuidadosamente canalizadas para  lideranças que exercem influência sobre um grupo determinado de pessoas,  como donos de escolas de samba, presidentes de associações de bairro,  líderes de pequenas igrejas, etc. É bem verdade que, ao menos em São  Paulo, quase não há dinheiro dado ao eleitor diretamente, mas à  liderança que sugere ao liderado em quem votar a cada eleição. O volume  de recursos exigido para essa modalidade de voto é assustador, e sempre  obtido e distribuído “por fora”.

Pois bem, e o voto de opinião,  onde fica diante disso tudo? Será que já não há espaço para o candidato  que faz campanha exclusivamente com base na defesa de princípios e  valores, sem comprar votos ou se prestar a ser lobista de grupos  específicos? Para que haja voto de opinião é preciso, antes de tudo, que  haja alguma opinião. Que existam políticos que se arrisquem a ter  efetivamente uma opinião, defendendo-a de maneira coerente e continuada,  sem se deixarem levar pelas pesquisas ou tendências do momento apenas  para amealharem votos de forma oportunista.

A política está  repleta de políticos guarda-chuva, que buscam votos em todas as  correntes de pensamento, sem se preocuparem em manter alguma  consistência de ideias e propostas. O importante é se elegerem. O que  eles vão fazer no dia seguinte não importa. Não assumem posição sobre  nada. Não têm opinião definida sobre nenhum assunto que a mídia já não  os tenha pautado e não se importam em mudar totalmente de direção se as  conveniências do momento assim o exigirem.

O patrulhamento  ideológico e a ditadura do politicamente correto também não contribuem  para que mais políticos se arrisquem a ter alguma opinião, sobretudo  polêmica. Sabem que, ao tomarem posição, serão alvo de ataques raivosos,  e sobre estes terão de se manifestar. Você mesmo, caro leitor, que já  ousou defender alguma opinião diferente da média, deve ter sentido na  pele como é difícil fazê-lo.

É preciso ter coragem para assumir  uma posição hoje em dia. Ter coragem de não ser como a folha morta ao  vento, que se deixa levar cada hora para um rumo diferente. Coragem para  defender posições firmes e claras, de forma impessoal e fundamentada,  sob pena de estar sempre sujeito aos oportunismos de alianças e acordos  políticos, cada vez mais espúrios, dissimulados e venais.

A falta  de opinião, a incoerência e a covardia dos políticos “gelatinosos”  acabam por amortecer o espírito e a capacidade de indignação do eleitor,  que, sucumbindo ao pensamento de que são todos iguais, já não se  importa em votar com qualidade. Vota-se no “menos pior”, pois, em tese,  são todos a mesma coisa.

Ter opinião e defendê-la, com coerência e  transparência, também significa, em alguma medida, aceitar a perda de  votos. Se um político não aceita perder votos, ou não concebe como parte  do jogo democrático a hipótese de perder uma eleição, para preservar a  dignidade e a coerência, já está a meio caminho andado para reinar no  campo da indefinição e da demagogia.

Por outro lado, a  consistência e a coerência da opinião do político serão sempre balizadas  por seu comportamento. Pela compatibilização da retórica com a prática.  Pela capacidade de se posicionar e por vezes contrariar  corporativismos, até mesmo de seu próprio partido. De contrariar o senso  comum quando este for contrario às suas convicções pessoais. De prezar a  boa conduta, sem se descuidar da qualidade e da credibilidade da sua  opinião.

O compromisso do candidato de opinião deve ser sempre o  de agir em conformidade com os valores que alega defender, sob pena de, a  cada novo desafio, achar desculpa ou pretexto para transigir ou mudar.  Como mostra o recente filme sobre Margaret Thatcher, há momentos em que a  intransigência é uma virtude, a melhor virtude, e o triste quadro  político atual demanda uma atitude intransigente na defesa de princípios  e valores.

A sociedade ressente-se da escassez de verdadeiros  líderes, que se comportem como homens de Estado, sejam capazes de  inspirar, empolgar e conduzir os seus eleitores para determinada direção  propositalmente escolhida. Sem isso não há realmente espaço para o voto  de opinião.

Sair da versão mobile