Terra
Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) discute com a sociedade o ensino religioso, tramita na Câmara um projeto para inserir o ensino do criacionismo na grade curricular obrigatória. Uma Ação Direta da Procuradoria-Geral da República quer que o Supremo reconheça que a disciplina ensino religioso não esteja vinculada a uma religião.
Na audiência pública, realizada neste mês em Brasília, a Confederação Nacional do Trabalhadores em Educação defendeu que a escola não pode privilegiar o ensino de uma religião. Até a Igreja Universal manifestou opinião contrária à disciplina em escolas públicas em nome da natureza laica do Estado. Do outro lado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil defende que ensino religioso possa ser confessional sem que isso signifique doutrinação religiosa, o que, na prática, pode ser mais difícil de executar.
O deputado Pastor Marco Feliciano (PSC – SP), por exemplo, tem um projeto de lei que propõe inserir conteúdos sobre o criacionismo na grade curricular das escolas públicas e privadas. A crença prega que toda a vida na Terra foi criada por um ser supremo e é aceita por diferentes religiões. Apesar de defender que religião é história e cultura também, o deputado fala em crença e deixa claro, em entrevista exclusiva ao Terra , que seu objetivo com a proposta é que as crianças voltem a acreditar que o universo não é uma criação do acaso, mas de um “arquiteto perfeito”.
Para o deputado, a Teoria da Evolução “não tem comprovação” e, portanto, daria margem ao ensino criacionista em paralelo para explicar a origem da vida. O PL não explicita em que disciplina deveria ser ensinado o conteúdo, mas, por sugeri-lo como uma alternativa ao evolucionismo, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) manifestou-se contra a proposta que considera cheia de “equívocos”.
A SBPC esclarece, em documento endereçado à Câmara dos Deputados, eventuais confusões feitas por quem coloca o evolucionismo e o criacionismo no mesmo saco. Para a Ciência, “uma teoria é uma explicação compreensível de uma característica da natureza que é apoiada por muitos fatos ao longo do tempo”. No caso, o conceito de evolução é apoiado pelo registro de fósseis, a pesquisa com DNA e a descoberta de que espécies têm ancestrais comuns, entre outros achados, que “somam evidências fortes que a evolução pela seleção natural é como a vida na Terra surgiu e se tornou diversa”. Já o criacionismo não é teoria, é crença, e ocorre, segundo o próprio texto do PL, “por força da fé, dos costumes, das tradições e dos ensinos cristãos”.
Em um ponto, a SBPC e Feliciano concordam: não há conflito entre ciência e religião. Mas, para os cientistas, é cada macaco no seu galho, ou seja, o criacionismo poderia ser ensinado em eventuais aulas de religião, facultativas por lei, mas não em disciplinas científicas, com matrícula obrigatória. “O fato de uma teoria não ser considerada científica não quer dizer que seja desprovida de significado ou importância.”








