A condenação e aprisionamento do médico referência em parto humanizado, Ricardo Jones, no Rio Grande do Sul, inquieta os pensamentos dessa leitora/escritora que não consegue omitir a partilha do que recebe através da leitura do livro Entre as Orelhas – Histórias de Parto, de sua autoria.
Pelo humanização do parto Ricardo Jones adaptou sua jornada ao desprezo da média comum de colegas de profissão, e por causa de uma intercorrência sobre a qual não influiu, hoje cumpre pena, como punição do sistema que transgrediu ao olhar para o corpo feminino como dono do ato de gestar e parir, partes de uma demonstração natural da sexualidade da mulher. “[…] só me restavam duas alternativas: abandonar o trabalho com as mulheres e gestantes, ou mudar radicalmente a forma de agir com relação a elas. Resolvi escolher a segunda alternativa, mesmo sabendo que tal escolha me levaria a ser desprezado por muitos colegas e incompreendido por outros”. (p.28)
A leitura dessa obra me provoca convulsões. Seja pela identificação enquanto mulher/mãe, como pela indignação causada a partir do desfecho de condenação e prisão de um homem raro, profissional de comprometimento sensível, que na condição de médico aguçou um olhar antropológico sobre a feminilidade e as violências que sofremos. “[…] pela primeira vez eu conseguia perceber a magnitude da capacidade feminina de suplantar obstáculos e adversidades. O nascimento era um evento épico!”. (p.25)
Enquanto leio as palavras e frases, recomponho na memória as expressões de Ricardo, conversando comigo sobre o tema na sala de sua casa:
” No nascimento de meus filhos, pude constatar, pela primeira vez, a misoginia essencial que comanda o proceder obstétrico, que se expressa pela compreensão defectiva da maternidade.” (p. 27)
“Nos primeiros congressos, conheci doulas, fisioterapeutas, enfermeiras, obstetrizes e psicólogas que me mostraram, de forma inequívoca, que os partos não eram de uma só corporação, mas que pertenciam às mulheres, cabendo a todos a possibilidade de auxiliá-las em conjunto e em harmonia”. (p.28)
Entrar no universo das mulheres pelas portas da medicina foi uma ousadia tão incrível para um homem, que registrar partes de suas falas é um modo de acenar para ele, dizendo que mesmo estando isolado desse mundo que o pune, nós sabemos o seu valor para a história da humanização do parto e valorização do nascimento como pertença feminina.
“Muitos foram os entraves que encontrei durante esta trajetória, mas nunca me queixei disso. não há como questionar os poderes constituídos sobre o saber médico sem que haja uma reação violenta”. (p.29)
Talvez a maioria de nós tenha memórias de violência obstétrica, e nunca se deu conta de que isso não deveria ser normalizado. Eu mesma as identifiquei em minha história de partos, que foram quatro. O doutor Ricardo Jones permitiu se extasiar com a riqueza da corporeidade da mulher e suas relações com a vida, sem preconceitos nem domínios.
“Tornei-me um apaixonado pelo feminino, pois para mim ele simboliza a capacidade de extrapolar os limites da própria epiderme e viver o amor como algo visceral”. (p.30)
“Para poder perceber outra realidade, fui obrigado a percorrer o caminho lento e espinhoso do amadurecimento. A abertura desta porta só se faz por dentro”. (p.32)
Sendo uma mulher brasileira de pouco mais de cinco décadas, mãe que pariu quatro filhos, letrada e atuante nas lutas feministas, confesso não ter ouvido outra pessoa abordar o parto com a fluidez humanística de Ricardo Herbert Jones.
“A construção milenar do parto humano é algo que se processa entre as orelhas. É ali, nas dobras e circunvoluções encefálicas, no emaranhado de sinapses, nos pontos de confluência, que o nascimento se processa. Ou, se quiserem, é nesse ambiente secreto, onde moram os medos, as alegrias, as paixões e o amor, onde a alma se encaixa no corpo formando uma unidade que só a morte desfaz”. (p.34)
Confesso emoção ao escrever, e não nego esse poder que a paixão de Ric Jones pela vida das mulheres e o nascimento dos seus filhos tem sobre mim, que acredito nele. Assim encerro por hora essa partilha analítica, na esperança de retornar aprofundando esse diálogo.
Convicta de que: ” Tanto quanto no sexo, existe muito mais no nascimento humano do que o que se pode encontrar no corpo e suas medidas”. (p.41)
#LiberdadeparaRicJones
Fonte: Entre as Orelhas – Histórias de Parto
JONES, Ricardo Herbert. Porto Alegre: Idéias a Granel. 2012.





