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Fábula futurista de Aldous Huxley e Brasil hoje, por Elson de Paula

Quando li o maior sucesso do escritor Aldous Huxley, o livro “Admirável Novo Mundo”, devia ter uns 20 anos de idade, e vivíamos no Brasil um clima de reconstrução pós-ditadura, já que o Regime Militar dava sinais de devolver o poder ao povo.

Talvez por isso, acreditei que a proposta contida na livro de Huxley fosse um absurdo jamais possível no mundo, principalmente, por ser a história, uma obra de ficção.

No livro Aldous Huxley escrito em 1931, o escritor trata de uma “fábula” futurista relatando uma sociedade completamente organizada, vivendo sob um sistema científico de castas. Não haveria vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido a doses regulares de felicidade química e ortodoxias e ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono.

Estas castas sobrepõe-se umas às outras de acordo com o grau de superioridade e perfeição de seus membros, no qual as castas altas dominam as baixas e as exploram servilmente.

Esta “sociedade perfeita” narrada no século VII d.F. (depois de Ford), era uma civilização de excessiva ordem onde todos os homens eram controlados desde a sua geração por um sistema que aliava controle genético (predestinação) a seu condicionamento mental, o que os tornava dominados pelo sistema em prol de uma aparente harmonia na sociedade.

Não havia espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois até os desejos e ansiedades eram controlados quimicamente pelo “Soma”, sempre no sentido de preservar a ordem dominante. A liberdade de escolha estava restrita a poucas matérias da vida. As castas superiores eram decantadas em “betas”, “alfas” e “alfas-mais” e se originavam de óvulos biologicamente superiores, fertilizados por esperma biologicamente superior, recebendo o melhor tratamento pré-natal possível.

Já as castas inferiores, bem mais numerosas, recebiam um tratamento diferenciado: provinham de óvulos inferiores, fertilizados por esperma inferior, passavam por um processo denominado Bokanovsky (noventa e seis gêmeos idênticos retirados de um só ovo) e eram “tratados prénatalmente, com álcool e outros venenos proteínicos” para assim, serem escravizados e manipulados através de seus vícios.

O admirável mundo novo de Huxley previa um mundo onde a ordem e o progresso eram excessivamente ufânicos e separatistas. Só os superiores desfrutavam de seus benefícios.

O ultra conservadorismo, a proibição do pensamento crítico, e a falta de liberdade em revelar-se diferentes, eram imposições à maioria dos habitantes deste novo mundo.

Hoje parei para refletir sobre a obra de Huxley, e percebo que ela não está tão distante e impossível de nossa realidade.

Na China, cientistas realizam cruzamentos entres embriões selecionados para atingir genomas perfeitos.

O ultra conservadorismo do Nazismo renasce na política da Alemanha de hoje, sem culpa ou constrangimento algum.

Grandes líderes mundiais desejam a construção de muros raciais e etnológicos em pleno século XXI.

A separação ideológica do povo, em castas, de acordo com suas opções sexuais, sociais, religiosas ou raciais, transformam o mundo no mesmo conceito previsto por Aldous Huxley em seu livro.

O Brasil não está fora desta previsão. Caminha para este mesmo “norte”, preso à conceitos radicais extremos e desejosos de um sectarismo assustador.

Índios e quilombolas são vistos como dispensáveis, avaliados por quantas “arrobas” pesam.

Cores das vestes são estabelecidas como padrões básicos, verdadeiros uniformes sociais.

Curas gays são prometidas como remédio para a “diferença” que não conseguem compreender.

A religião se torna o próprio Estado.

E educação básica é engessada a níveis “robóticos e lobotômicos”.

A história do passado é apagada com a borracha da “moral e dos bons costumes”.

Enfim, resolvi reler Admirável Mundo Novo, e percebo que não é tão impossível vivermos num mundo tão absurdo como acreditei em minha juventude… basta para isso, nas próximas décadas, continuemos elegendo como governantes os mesmos políticos medíocres que elegemos hoje.

BOA SEMANA PROCÊS!
ELSON 07/01/2019

Uma outra frase de Aldous Huxley que tem muito sentido hoje no Brasil é:

“Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados.”

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