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EXCLUSIVO: Bolsonaro tem de ser pressionado para governar, diz Alberto Carlos Almeida

A afirmação parece óbvia. Mas para o doutor em ciências políticas, Alberto Carlos Almeida, todos os brasileiros precisam tomar gosto pela política para influir nas decisões federal, nos estados e municípios.

A notícia boa: o interesse pelos assuntos nacionais vêm crescendo e despertando adeptos em todos os públicos.

A ruim: não é impossível que, neste Brasil, cresçam ideias separatistas.

O alagoano de Maceió falou ao blog a poucos dias de começar uma série de cursos pela internet (inscrições aqui) onde falará sobre um assunto que desperta fascínio e medo no Brasil onde o presidente é Jair Bolsonaro: política.

Como você imagina governadores de uma região formando um consórcio para enfrentar e sobreviver a um presidente da República que governa um país como se essa região não existisse ?
Eu vejo com normalidade. Note que os governadores do Sul e Sudeste fizeram o mesmo. Meu receio é pontual: que isso não abra espaço para uma campanha separatista de algumas destas regiões. Hoje acho improvável, não impossível, mas é importante o alerta.

Como Alberto Carlos Almeida, alagoano, nordestino, encara o Governo Bolsonaro?
Com preocupação. Na verdade, a leitura do Bolsonaro, de desrespeito ao Nordeste, aos índios, aos pobres não só do Nordeste mas também de outras regiões do país. Ele só atende quem votou nele; quem não votou, ele trata muito mal. É uma sinalização muito ruim para o sistema político, para a população. Por exemplo, toda a pressão pelo retorno do Mais Médicos, mas ele não dá a menor bola para o programa porque atende um eleitorado que não vota nele. Isso é um absurdo. Todo presidente tem sua prioridade, seu programa que pode não ser o do eleitorado que não votou nele mas não se pode simplesmente deixar de lado esse eleitorado. Isso se aplica ao Nordeste. Bolsonaro tem de ser pressionado a ser um representante do povo, do país. Não somente para aqueles que votaram nele.

Você, no seu curso online sobre política, diz que quem manda no Brasil é o próprio brasileiro. Nesses seis meses de Governo Bolsonaro, você revisaria esta afirmação?
A resposta para quem manda no Brasil é complexa. O voto manda, as pessoas não podem menosprezar. São mais de cem milhões de eleitores. É uma força infinitesimal, mas está presente e eu mostro isso. Para alguns assuntos, uma determinada força política é quem manda; para outros, outras forças. Durante o curso, mostramos como o poder no Brasil é muito dividido, desconcentrado, com muita gente que tem a capacidade de vetar decisões.

Falar de política quando existe certo estímulo à revisão ou novas versões a fatos históricos como a ditadura não é “coisa de comunista”?
Não. Nos últimos anos, a política despertou o interesse de muita gente. Em alguns aspectos, de uma maneira não muito salutar porque muito radicalizada ou polarizada.A humanidade já viveu períodos de polarização maior, depois houve um retorno, uma confluência para o centro. Tenho esperanças. O fato é que falar de política, participar da política, não é coisa de comunista, não é coisa de esquerdista. É mais amplo, a sociedade está mais participativa, mais informada, mais mobilizada.

Como falar sobre política em temos de pouca esperança?

É complicado. Por um lado, existe mobilização maior da sociedade brasileira, debates mais intensos. Por outro, tem essa rejeição por causa dos escândalos de corrupção, da desilusão. Não tem jeito. Independente disso, é preciso falar de política. Nossa vida depende de decisões tomadas em Brasília, em Maceió, enfim, nas diversas instâncias dos governos federal, estaduais e municipais. A pessoa que não quiser tratar de política será governada por alguém disposto a tratar deste assunto. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Darcy Ribeiro disse uma vez que era utópico da cabeça aos pés, ao falar sobre o Brasil. Você é utópico com o Brasil?

Minha visão é empírica, fundamentada em informações. Estou preparando um trabalho sobre a evolução do país nos últimos 100 anos. Houve melhorias nas condições. O Brasil não é o país do futuro. As pessoas querem mais- e devem querer mais mesmo- mas no fundo o país já melhorou. É o país do presente. As pessoas vivem mais, têm mais saúde, estão mais bem nutridas, têm mais acesso a bens privados e serviços públicos. Isso não é otimismo. É uma visão realista.

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