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Evolução e revolução íntima

Muitas vezes redarguimos às imposições da evolução com a força do hábito linguístico, legítimo e compreensível: não é fácil mudar!

Se o fosse por certo não estaríamos cumprindo a saga entre mundos ainda nesta insipiência moral e intelectual na qual nos encontramos, enquanto espíritos viajores dos tempos.

Analisando o recorte brasileiro, sobre o qual agora podemos falar com mais precisão, é visível o apego de milhares de nós aos arroubos de uma pseudomoralidade político/religiosa medieval, que arrasta consigo a responsabilidade por enormes crimes.

Muitos cenários sociais podem estar sendo erguidos hoje pelos mesmos espíritos que no passado, em outro continente, colaboraram para o êxito da infâmia sob a jargão poderoso de uma política segregacionista e impuseram a outras partes do mundo o peso de suas ambições e sanha de dominação.

Pelo dinamismo da existência através do renascimento muitos espíritos conseguem renovar suas formas de entendimento e capacidade de sentir o outro, através do envolvimento gerado nas plataformas dos encontros e até mesmo dos desencontros. Neste território de arbítrios em consonância com os determinismos internos e externos, a vida flui.

Fora da Terra muitas ideias cristalizadas nas mentes daqueles que as tomaram como verdadeiras e dignas permanecem vigorosas, e nem sempre poderão ser apontadas como salutares. “Os espíritos não são seres à parte, mas as próprias almas dos que viveram na Terra ou em outras esferas, e que se despojaram de seus invólucros materiais”. 1

Enquanto encarnados, poderemos aderir às massas que compactuam vibrações similares cortadas por interesses e buscas conscientes ou não, assim como é possível recebermos influências de desencarnados, seguindo a lógica das leis de afinidade independente dos planos astrais. Já que” […] os Espíritos pululam à nossa volta e, quando imaginamos estar sozinhos, estamos incessantemente rodeados de seres que se nos acotovelam, uns com indiferença, como estranhos, outros que nos observam com intenções mais ou menos benevolentes conforme a sua natureza”. 2

Enquanto as vibrações (que são a representação energética do que pensamos e sentimos) não se elevam na direção do bem comum, a partir das experiências de agora, ainda estaremos lidando com a carga de enganos que amealhamos ao longo das vidas e vivências, partilhando dores e patologias instaladas no ser pelo temor das necessárias mudanças e seus desapegos aos vícios que costumam prender convicções.

Há um certo impulso inato que trabalha a favor dessa vitória sobre a constituição energética da humanidade com tendências morais atrasadas, apontando para a crença no futuro espiritual. “A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às ideias, outro fito ao trabalho; antes dela nada que não se prenda ao presente; depois dela tudo pelo futuro sem desprezo do presente, porque sabe que aquele depende da boa ou má direção deste.” 3

Ainda assim, tal compreensão não se mostra suficiente para o esclarecimento integral do ser sobre a grandeza da vida em proporção coletiva, pois muitos aderem às crenças na continuidade da vida espiritual sem nelas incluírem o amor universal, as propostas de libertação e os direitos dos demais.

Migram de um pensamento hedonista e efêmero para um tribunal de cunho religioso com efeito doloso, pois compartilham legitimidade a muitas estratégias de punição, que no cerne conservam o teor de vingança sobre aqueles que não conseguem dominar. Muitas expressões religiosas demonstram queda neste abismo do pensamento, praticando atos de desamor como se estivessem amando.

Talvez conheçamos muitas entidades hoje encarnadas na Terra, de modo particular no Brasil, que demonstram estas características e influenciam milhares com retóricas de envolvimento e acomodação em falsa segurança. O temor da mudança também tem seus recursos de ilusionismo consagrado.

Não é fácil olhar para nossa intimidade se não formos capazes de perdoar, porque muitas vezes reconheceremos nossa necessidade profunda de perdão. Outro ponto difícil aporta na humildade. Não aquela doçura imposta em vernizes de relacionamentos, mas esta aceitação de nós mesmos e dos processos existenciais que não poderemos passar a outrem. Falamos da humildade de nos aceitarmos, simplesmente.

“Homens! Aprendei a imergir em vós mesmos, a esquadrilhar os mais íntimos recônditos do vosso ser; interrogai-vos no silêncio e no retiro. E aprendereis a reconhecer-vos, a conhecer o poder escondido em vós.”4 Sem esta posse de consciência individual amorosa, livre e libertária, manteremos o isolamento que nos atrasa a jornada comum. Precisaremos desatar em nossas almas a energia política que nos associa e irmana, implorando por compreensões novas acerca dos mundos herdados pela criação.

Mudar não é fácil mas é possível! Oportunidades são renovadas a cada renascimento, que ao ocorrer neste globo chamamos reencarnação.

“Ó alma humana! Torna a descer a Terra, recolhe-te; vira as páginas do grande livro aberto a todos os olhares, lê, nas camadas do solo em que pisas, a história da lenta formação dos mundos, a ação das forças imensas preparando o globo para a vida das sociedades”. 5

Deixemos o passado espiritual e humano em lugar pedagógico, de onde deve nos lembrar por quais estradas não seguir agora. Valorizemos as ideias que nos pareçam novas. Se espíritas, aprendamos com o Espiritismo em sua original mensagem. “O Espiritismo não vem adormecer as consciências, oferecendo ao mundo o ópio de uma nova religião dogmática e conservadora […]; não vem matar os impulsos revolucionários generosos e emancipadores que se dirigem à melhora da vida das pessoas e dos povos; é por sua própria essência revolucionário, no elevado conceito da palavra, seja na ciência e na filosofia, como na moral e na sociologia”.6

A revolução íntima está nos convidando.

 

  1. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Ano II. Janeiro de 1859. Nº 1. P.11
  2. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Ano II. Fevereiro de 1859. Nº2. P.52
  3. KARDEC, Allan. O Céu e o inferno. 56 ed. Rio de Janeiro. FEB. 2005. P. 21
  4. DENIS, Leon. O grande enigma. Editora FEB. 2008. P.15
  5. DENIS, Leon. O grande enigma. Editora FEB. 2008. P.63
  6. PORTEIRO, Manuel S. Espiritismo Dialético. P.12

 

 

 

 

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